terça-feira, 18 de setembro de 2018

A viagem é a recompensa


Hoje, a tribo Ronaldo preparou-se para a estreia europeia da Juve, com o mesmo entusiasmo e a mesma ilusão da primeira vez.

Naqueles primeiros pontapés em Manchester, sobrava-nos a pureza de não poder perceber a eternidade que estava à nossa frente; hoje, no Mestalla, sobrando-nos a consciência do que é poder ver, provavelmente pela última vez, a eternidade a ficar para trás.

Tantas vidas depois, começámos juntos outra vez, com o mesmo nervo, a mesma expectativa, a mesma vertigem, a mesma comoção. Como se também fôssemos nós a estar à prova, como se também fosse a nossa vez de marcar, e a nossa responsabilidade. Porque era. Porque o legado do Ronaldo é exactamente esse: é toda esta viagem que fizemos juntos, e todas as noites e todos os golos, e todas as pequenas e grandes vitórias que ganhámos juntos, tantas vezes.

Hoje, na enésima vez em que o trataram como se fosse especial, porque ele é, destratando a história e o tempo com um insuportável ajuste de contas, já temos o dever de saber que uma das poucas coisas garantidas na vida, é que o Ronaldo volta, sempre. É essa ressurreição que nos deve confortar, tal como há de confortar quem o quis expulsar hoje.

O que custa não é, por isso, a alma em carne viva por lhe terem roubado este momento; o que custa, a crer, é o privilégio inenarrável que foram estes 15 anos.

domingo, 8 de julho de 2018

Foi o Cristiano que nos salvou


Por mais anos que viva, nunca me vou esquecer daquele livre directo, ao minuto 88, no Estádio Olímpico de Fisht, num Portugal-Espanha lá longe, no calor do Mar Negro, a abrir o Campeonato do Mundo da Rússia.

Tudo, nesta que foi a viagem mais épica e improvável da minha vida, teve contornos verdadeiramente inesquecíveis. A oportunidade absurda, a razão, o destino, o desfecho. Ir ver, em carne e osso, um Campeonato do Mundo, o maior fenómeno que se pode ver na vida com os próprios olhos, e logo na Rússia, e logo um Portugal-Espanha, e logo com o escudo de Campeões da Europa, e logo com o Ronaldo no auge, e logo na euforia da abertura.

O Mundial é um exercício de restituição de fé na Humanidade. E quem não vê isto, não é porque não gosta de futebol; é porque nunca foi a um Mundial e nunca teve, por isso, o privilégio de comungar daquela tribo mística feita de gente dos quatros cantos do planeta, de sorriso na cara, coração nas mãos e tanta vontade de ser feliz, no mesmo lugar durante o mesmo mês, e através das culturas, dos credos, das raças e das paixões dos outros. Não sei se um dia o futebol vai salvar a Humanidade, mas tenho a certeza que o Mundial é definitivamente o lugar por onde começar.

Por tudo isto, ter estado na Rússia teria valido a pena por si só, teria sido o início e o fim de uma benção que já me benzeria para a vida toda. Não era preciso o Ronaldo ter feito um hattrick à minha frente contra o penúltimo Campeão do Mundo e nosso rival imemorial, com uma obra-prima a salvar-nos a vida no último instante, num dos seus melhores jogos da carreira e da História da prova mais sagrada de todas.

Não era preciso, e as horas que se seguiram àquela anunciação têm sido de uma gratidão difícil de explicar. Antes de todos, ao Sérgio, daquele punhado de irmãos que a vida me deu, por me ter levado com ele de véspera nesta loucura que espero um dia lhe poder pagar; depois, a toda a gente sem nome, por esse planeta fora, que faz do futebol um lugar tão especial, puro e transbordante de esperança, um motivo legítimo de viagem, encontro e partilha, mesmo que isso às vezes pareça tão inalcançável; ao Fernando Santos, um homem certo no lugar certo, por quem tenho um carinho e uma consideração imensos, o tipo que disse, antes da final da França, que não éramos favoritos mas que íamos ganhar, sempre com as palavras certas, e uma resiliência de vencer absolutamente carnal e incomum, um gajo que me podia tornar religioso se quisesse; e claro, ao Cristiano.

Não há ninguém a quem tenha dedicado mais textos na vida do que ao Cristiano. E não era preciso dedicar mais nenhum e não era preciso ele marcar mais golo nenhum. Mas por mais anos que viva, nunca me vou esquecer daquele livre directo, ao minuto 88, no Estádio Olímpico de Fisht, com a bola a flutuar no espaço, no tempo e na nossa imortalidade, depois de ter passado dois dias a mostrar o escudo a gente que ficava contente pelo facto de eu ser português, depois de ter cantado A Casinha dos Xutos no aquecimento, de ter sentido um peso no peito pela altitude de rezar o hino naquele cenário, depois de já ter festejado dois golos como este vídeo, depois de pensar que já nem o Cristiano me conseguia fazer chorar, como se fosse realista pensar que ele não consegue alguma coisa.

Não sei se um dia o futebol vai salvar a Humanidade, mas sei que o Cristiano já nos salvou a todos, de uma maneira ou de outra. Porque o Cristiano já fez mais pela autoestima deste país e dos portugueses, pelo nosso orgulho diplomático, a nossa excelência e transcendência, pelo nosso talento, capacidade de trabalho, sacrifício e superação, e pela refundação da nossa mentalidade, do que qualquer português dos livros de História, e não é vergonha dizer isso, vergonha é, a cada dia que passa, não lhe retribuir ao menos isso. Quase como se ser o melhor do mundo num país como o nosso, fosse compatível com aquele altruísmo e aquela dedicação, com aquela pureza e aquela generosidade, quase como se ele é que nos devesse alguma coisa, quase como se fosse normal.

Naquele relvado em Sochi, não vimos um avançado a fazer três golos. É mentira. Quem tem aversão a futebol, quem é mais equilibrado do que eu em todas as artes e ofícios e muito mais politicamente correcto, pode-me recusar isto até à morte, mas o que lá estava era um homem que é maior do que o país. E isto não deve afectar ninguém, agredir nem ofender ninguém, pelo contrário, como poderia? Só pode é ser motivo de orgulho, para o nosso dia-a-dia e para o nosso futuro, para qualquer criança portuguesa que nasça nesta terra que não é potência de nada, a não ser na sua gente modesta e humilde, que só chega a algum lado na vida com muito sacrifício e muito trabalho, e chega a todo o lado se for o Ronaldo. É por isso que um miúdo que o veja jogar em qualquer parte, acha que pode ter todos os sonhos do mundo. Imaginem então um miúdo português, um homem ou uma mulher portugueses, um emigrante português, vejam, como eu vi, a maneira como os colegas olham para ele em campo, como os adversários olham para ele em campo, a maneira como os portugueses são tratados numa cidade do Campeonato do Mundo, só por andarem na rua com o escudo ao peito. Só por serem portugueses. Porque o escudo é o Ronaldo, e portanto nós também devemos ser super-heróis como ele.

Não é por causa de três golos na primeira jornada de um Campeonato do Mundo que vou escrever isto pela primeira vez, mas eu estava lá e vi aquele que, talvez, é mesmo o melhor futebolista de sempre. E, acreditem ou não, o melhor futebolista de sempre pode, de facto, ser Campeão do Mundo. A melhor parte, como sempre, ao fim de todos estes anos, é a mesma. É que pudemos ser campeões como ele.

domingo, 4 de março de 2018

ÓSCARES 2018 - Previsão


Que seja a noite de Três Cartazes à Beira da Estrada sobre A Forma da Água, o triunfo do conteúdo sobre a forma, da humanidade singela, e do cinema que fala de gente, sobre a estética tantas vezes presunçosa, vangloriosa e incomunicável.

Isto significa Filme, Argumento Original (para o genial Martin McDonagh) e Ator Secundário (onde nem quero ouvir falar de um Willem Dafoe invisível, perante Sam Rockwell e o papel de uma vida), mas significa, sobretudo, a Senhora que definiu o que era a medida da excelência para todas as outras almas do ano. Frances McDormand é a estrela da noite, é não só o Óscar mais garantido, como o mais merecido, e é, no fim de contas, a melhor notícia que podíamos ter, em tempos tão incertos e traiçoeiros, pela valorização do que é o talento e a experiência, e pela glorificação do que é um filme com pessoas lá dentro. McDormand foi mais do que uma personagem e, no cinema como na vida, é sempre mais especial se for de verdade.

Numa noite para eternizar velhos caminhantes, o monumental Gary Oldman chegará, finalmente, ao primeiro Óscar da carreira, numa performance imortal e num retrato especial, que honestamente me disse muito, me fascinou e inspirou, e que não tenho dúvidas foi dos mais subvalorizados do ano. Como ao próprio Churchill, será o tempo a fazer justiça à Hora Mais Negra. É sempre ingrato falar de concorrência perdida, mas a vitória do velho Oldman será absolutamente valorizada por duas outras interpretações singulares, uma em cada ponta do espectro: por um lado, a explosão de um prodígio chamado Timothée Chalamet (Chama-me pelo Teu Nome); por outro, a despedida do maior de todos os tempos. Vale a pena acreditar que não seja para sempre, Sir Daniel Day-Lewis.

Como sempre, em noite de Óscares, tem de haver lugar ao idealismo e às apostas cegas, pelo que também é hora de atirar unicórnios. Serão, à primeira vista, categorias fechadas, mas se uma única for disputada, então já ganhámos todos qualquer coisa. Começo por Actriz Secundária, onde Allison Janney (Eu, Tonya) é para lá de favorita, com Lesley Manville (A Linha Fantasma) a correr por fora. A beleza é mesmo esta, porque por mim não era uma, nem outra, ainda que Janney seja uma boa vencedora. O meu Óscar ia inteirinho para Laurie Metcalf, única forma humildemente condigna de celebrar uma pequena pérola, que foi a maior surpresa do ano: Lady Bird.

Do benefício da dúvida, passamos para uma questão de justiça e para o esvaziamento definitivo do filme mais desproporcional do ano. Isso implicaria, claro está, resgatar o Óscar de Melhor Realizador para Paul Thomas Anderson (A Linha Fantasma), tirando-o literalmente das mãos de Guillermo del Toro (A Forma da Água), que já é o vencedor oficioso. Muito sinceramente, é mais uma vitória oficiosa incompreensível, porque parece-me evidente que Thomas Anderson apresenta, de longe, o melhor trabalho do ano, com uma verdadeira obra-prima de alta-costura. Todavia, estaria até disposto a ser ainda mais inortodoxo e a pagar para ver uma fantástica oportunidade de partir pedra, reconhecendo, porque não, a delícia do trabalho de Greta Gerwig (Lady Bird), em mais um filme que cometeu a indubitável proeza de falar de relações como se elas não tivessem nada de sobre-humano.

Para o fim, fica um clássico pessoal, de tão redundante, uma mistura entre uma categoria favorita (Argumento Adaptado) e o melhor argumentista que já viveu. Aaron Sorkin voltou em força e Molly's Game é uma maravilha de cinema-espectáculo, vertiginoso, contagiante e sedutor, daquele que nos arranca da rotina e nos leva consigo a viajar. Call Me by Your Name, o favorito, é um dos filmes que marca o ano, mas não precisa deste ponto de honra.

Da alta roda da temporada, só não vi o Get Out, e tenho pena de não "conseguir" redimir com um prémio uma peça tão admirável como The Post. Consegui, ainda assim, voltar a acompanhar a corrida como já não o fazia há bons anos e a melhor notícia é que este foi verdadeiramente um ano bom. Mais logo, lá estaremos para a luta, como sempre.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Phantom Thread: a vez dos artesãos


É um dos filmes mais majestáticos do ano, porque é um modelo de marca. Um filme cuidadosamente medido, desenhado e cosido à mão pelo delicado engenho de dois artificies marcantes: Paul Thomas Anderson, na criação, e Daniel Day-Lewis, na execução. O resultado final é inteiramente indissociável de ambos, como numa dança impossível de fazer sem os dois, uma insinuação permanente, como se adivinhassem os movimentos um do outro, mesmo quando parecem estar a dançar sozinhos. Phantom Thread é um filme que deixa impressão e não deixa ninguém indiferente, e obviamente começa a ganhar logo aí. Por saber o que quer e para onde vai.

É austero, mas não assusta, é de finíssimo recorte, mas sempre capaz de nos envolver, de nos seduzir e de nos alimentar a saciedade. No universo de Paul Thomas Anderson, entrar numa sala de cinema, é como entrar num palácio, e é assim que o notável realizador californiano - que chancela mais uma suprema e incontornável nomeação ao Óscar - nos recebe no seu atelier de alta-costura, com decoro e formalidade, mas com uma capacidade omnipresente para nos fascinar pela profundidade da câmara, pelos cores e pelos filtros, pelos ângulos, os tecidos e as texturas, até pelos silêncios. É uma realização verdadeiramente em 4D, como se pudéssemos olhar e tocar em volta, e sentir-mo-nos em cada uma daquelas divisões.

Este é um exercício tão desafiante, quanto cativante, que nos exige atenção quase a tempo inteiro, comprometimento e devoção para com os detalhes, mas não é um exercício imaculado, porque como acontece quase sempre num filme que faz questão de ter a realização como protagonista, tão presente e tão saliente, é difícil até ao melhor dos maestros nunca perder a mão. Digamos que, se não perde a mão, Thomas Anderson deixa-se claramente deslumbrar, emerso no seu próprio perfeccionismo, prolongando cenas e contemplações que não precisariam de ser tão longamente concebidas, e, sobretudo, não por seu bel-prazer.

A juntar a isso, há que referir que o argumento é, pelo menos... peculiar. A caracterização das personagens e o fio condutor dão-nos pouco quase sempre, exigindo ao espectador uma carta branca para o que é compreensível, e para tudo aquilo que não é. Mas se não é de descuro que se trata, acaba por haver um certo ligeirismo psicótico, na premissa de que nada se explica, mas tudo é artisticamente justificável. Por ironia, o argumento será a única parte do filme que denota uma evidente dificuldade em falar connosco, talvez pelo esforço desproporcional (e desnecessário) em ser demasiado provocador ou inortodoxo.


Claro que depois há Sir Daniel Day-Lewis, e enquanto houver Day-Lewis há sempre esperança. Poucos predicados serão capazes de descrevê-lo, mas talvez possamos resumir que é alguém que podia ganhar um Óscar sempre que acorda. Aos 60 anos, é o melhor da actualidade, talvez seja o melhor de sempre, e pode ganhar este ano o 4º Óscar para Melhor Actor e bater... o seu próprio recorde absoluto. Com apenas seis filmes feitos nas últimas duas décadas, Day-Lewis anunciou que Phantom Thread seria a sua despedida, mas não faz sentido falar disso agora, e faz muito mais sentido que, por uma vez, ele não saiba o que está a fazer.

Phantom Thread tem uma realização metodista, muito forte e muito emblemática, mas obviamente não poderia existir sem o verdadeiro assombro que dá pelo nome do seu protagonista. Podia dizer que é uma interpretação de nível estratosférico, mas é mais correcto dizer que foi só mais um dia de escritório para Day-Lewis, um dos únicos da História que poderia incendiar um ecrã com um sorriso ou um olhar, com um gesto ou até com o seu próprio silêncio, impávido e sereno. Como o prova a sua carreira, Day-Lewis não tem pressa para nada, nem se exalta com coisa nenhuma, não vai pelo caminho mais fácil, nem definitivamente pelo mais óbvio. Day-Lewis joga no seu próprio tabuleiro, joga sozinho e ganha sempre.

Phantom Thread não é um filme unânime e não será, definitivamente, para todos os públicos, porque implica que se perda tempo e que se ceda poder, porque implica que se abdique de estar no controlo. Não é uma viagem para fazer sempre, mas quem se deixar levar, não se vai arrepender.

7.5/10

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Logan: os heróis também merecem jubileu


Haverá, necessariamente, um filme para quem cresceu com X-Men e outro para quem não o fez, como em quase todas as sagas. Ainda que sejam os dois bons, essa será, porventura, a diferença entre ver Logan como um dos marcos do ano e reconhecê-lo - se é que isso é dizer pouco - como um filme de super-heróis acima da média.

Apesar dessa não ser uma média alta, engana-se quem acha que é fácil cumpri-la. Os exemplos disso mesmo são, de resto, incontáveis. Foi sempre difícil fazer filmes substanciais de super-heróis, pela forma, pelo contexto e pela audiência. O mérito de Logan é, por isso, e desde logo, o seu grande orgulho próprio. É um filme com propriedade e com identidade, que não deve nada a ninguém, um filme com um estatuto moral notório, que fecha um ciclo sem pedir licença, nem tentar agradar. Passará muito por aí a histórica nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Adaptado (crédito, entre outros, para James Mangold, que escreveu a short story e também realiza), a primeira de sempre da Marvel para as grandes categorias e apenas a segunda jamais concedida à banda desenhada, depois do imortal Óscar póstumo ao Joker de Heath Ledger, em The Dark Knight.

Apesar da excelente atitude, se desprovido da componente emotiva, ou militante se quisermos, Logan não é um filme que surpreenda pela mensagem (nem há sequer comparação possível com os Batman de Nolan, ou até com Watchmen), nem pela abordagem, que chega a ser exageradamente gratuita, com matança desproporcional, em quantidade e em duração de cenas, o que é tanto mais discutível porque dava a sensação de que não era preciso ter ido tão ostensivamente por aí.


Para o bem e para o mal, Logan faz o caminho à sua maneira, e acaba por ter duas grandes ajudas. A primeira é o cenário distópico e o ambiente poderosamente pesado, que nos absorvem desde a primeira hora. É um filme tão árido como algumas das suas paisagens, genuinamente triste e martirizado, e isso graças a uma narrativa que sabe capitalizar o ambiente e que é, sobretudo, firme no sacrifício que lhe emprega.

O verdadeiro trunfo é, contudo, o carisma fundamental das duas personagens principais. Hugh Jackman é tão auto-destrutivo quanto inesgotável, tão intratável quanto disponível, e impressiona a forma como, mesmo contra a vontade, vai resistindo por instinto à sua inevitável degradação. Patrick Stewart é, todavia, e para mim, o maior expoente emocional do filme. Desde a brutal primeira imagem que temos dele, de ir às cordas, até à forma extraordinariamente graciosa como eterniza a sua boa vontade, a sua consciência e o seu toque redentor, mesmo por entre todo o seu tormento. É dele a minha cena favorita ("This was, without a doubt, the most perfect night I've had in a very long time") e, se dependesse de mim, teria trocado sem hesitar a nomeação para Argumento, pela indicação a Melhor Actor Secundário.

É por causa de cada um deles que, mesmo para quem assiste ali ao filme pelo filme, e não a um tributo a uma História muito maior, é impossível ficar indiferente. Logan podia ter sido muitas coisas, algumas melhores, outras bastante piores, mas no fim, foi fiel ao seu ADN, ganhou e perdeu com as suas próprias regras, e com as suas próprias garras, e é por isso que merece respeito. Quase 20 anos depois da primeira vez, Jackman e Stewart despedem-se com a sensação de dever cumprido e com o seu próprio lugar na memória e num Olimpo do tamanho da velha Mansão, aonde todos voltaremos sempre, de uma forma ou de outra.

7/10

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Darkest Hour: os Leões nunca morrem


"Lost causes are the only ones worth fighting for"

É quase impossível sermos apanhados de surpresa quando já temos expectativas muito altas. Darkest Hour é esse filme ainda melhor do que as melhores expectativas. Já era, desde o início, uma proposta irrecusável, mas o retrato do maior líder europeu do século foi mais esmagador do que isso, e transformou-se num jackpot de corpo e alma. Gary Oldman é um Óscar vivo e este Óscar merece ganhá-lo de graça, com honras de Estado. Darkest Hour são duas horas que podiam ser dadas na escola, sobre estadismo e transcendência, sobre carácter, coragem e heroísmo da vida real, mesmo se perante circunstâncias infinitamente maiores do que a vida, mesmo se numa solidão infinitamente maior do que a própria morte. É um filme abismal e arrepiante, de matar o fôlego a uma pancada de cada vez, para ver e rever, um filme cujo peso do mundo aos ombros nos verga numa vénia emocionante à resiliência da Liberdade e à grandeza dos gigantes que fazem a nossa História e a nossa Humanidade. 

Darkest Hour é uma bem-aventurança em tempos de desinspiração, uma dádiva em tempos de descrença, uma trepidante viagem pelo limbo mais trágico do século XX europeu, uma visão materializada do Inferno à nossa frente, no fio entre viver sem esperança ou morrer sem salvação, num grau de desalento e desolação que já não foi do nosso tempo, nem da nossa geração, um grau de perda no qual dificilmente poderíamos acreditar com os próprios olhos, mas que, por entre as descargas de nervos, temos a felicidade de conseguir sentir, chocados, como num ataque de pânico atrasado, como numa visão da vida a fugir-nos à frente dos olhos, perante tudo o que podíamos ter sacrificado, que é tudo o que conhecemos hoje. E neste quadro de luto, brilhantemente talhado a negro nas mãos de Joe Wright, no contexto, na forma, nos lugares e no significado, sobressai a luz incandescente de um homem singular, numa representação tão impensavelmente fascinante como ele próprio.


Este é o ponto que resume o filme. Tudo podia ter funcionado como funcionou (a realização, o argumento com conta, peso e medida de Anthony McCarten, tão dedicadamente bem escolhido e bem trabalhado, o glorioso elenco), mas nada podia ter funcionado como funcionou não fosse a obra-magna de Gary Oldman, um dos melhores da década e certamente a melhor da sua vida. Não tenho elogio maior a fazer a nenhum actor, do que dizer-lhe que foi do tamanho do próprio Churchill. Foi perfeito. E sorte a nossa, continuará a ser perfeito de todas as próximas vezes que o reencontrarmos, numa história, a Nossa, que merecerá sempre ser recontada, para podermos partilhar com ele as indecisões e as certezas, os maneirismos e os murmúrios, as palavras e a espectacular autoridade moral do Último Leão. Como escreveu um dia Manuel Alegre, "há sempre uma candeia/ dentro da própria desgraça" e "mesmo na noite mais triste/ há sempre alguém que resiste." Tal como lhe dedicou David Elrich na IndieWire, Darkest Hour é "o testemunho do poder das palavras e da sua infinita capacidade para nos inspirar", e da sua infinita capacidade para nos salvar, acrescentaria eu.


É impossível não pensar nisso, não pensar nele, e não sorrir. Quanto tamanho, quanta magnitude, quanto génio e engenho são necessários para fazer o caminho certo sozinho, com as próprias dúvidas e com todas as dúvidas dos outros, porque achamos que estamos a fazer a coisa certa. De todo o retrato portentoso que fica do filme, o que mais comove não são os murros na mesa, os berros no Gabinete de Guerra, ou os discursos inflamados ao Parlamento (pesem todos os nós na garganta); são, pelo contrário, os silêncios, o medo atroz, as hesitações, as tais falências e imperfeições que, tal como a maravilhosa Kristin Scott Thomas lhe explica a dada altura, o tornaram verdadeiramente preparado para o cargo.

São esses momentos apaixonantes e insubstituíveis com a mulher (aquele toque, aquele comprometimento, aquele confessionário, o tempero sagrado para todo o restante e imensurável temperamento), são o telefonema a Roosevelt, a incursão no metro (que por mais que seja História ficcionada, é uma cena brilhante e fidedigna na construção, genuína, do personagem) e a conversa com o Rei Jorge VI naquela meia sala, meio aposento lá de casa (menção obrigatória à capacidade de redenção de Ben Mendelsohn), para mim a cena do filme, pela dor daquela vulnerabilidade e pelas lágrimas nos olhos de ser, por uma vez, alguém que não ele a dizer que valia a pena ter esperança.

Darkest Hour é uma experiência cinematográfica, social e histórica, um bocado de tudo o que temos de melhor, da Política à Arte, da História à Filosofia e ao Humanismo, consubstanciada na ressurreição de um homem extraordinário num tempo extraordinário, maior do que a vida e do que um país, do tamanho de um século de História comum, uma história duríssima e poderosa, inspiradora e carismática, e que nos ensina a todos que, nem perante a escuridão, nem sequer perante o fim, temos o direito de desistir. Que nos ensina a todos um bocadinho do que é ser um herói com todas as letras.

9/10

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Call Me By Your Name: faz o que eu digo, não faças o que eu faço


É um dos filmes mais ambiciosos da temporada, pela forma nua e despojada como trata o exercício da descoberta sexual, no caso, quando esta rompe com os cânones estabelecidos da época, da cultura e da própria sociedade vigente. É um filme seguro e que exibe vários predicados, mas não é tão afirmativo quanto supõe, porque acaba por soçobrar no esforço em balizar uma história de amor, desejo e deslumbramento intrínseca, justificando-se demasiado, entristecendo-se demasiado e sofrendo demasiado.

Call Me By Your Name encara com descomplexo o retrato da homossexualidade tantas vezes subretratada, mas não resiste a que a narrativa lhe vá fugindo por entre os dedos dolorosamente. A proposta de responder com naturalidade a essa descoberta do primeiro amor vem, neste caso, torturar-se a si mesma, como que contrariando a própria mensagem de que o amor, em todas as suas formas de sexualidade, deve ser abraçado, explorado e orgulhado. Isso leva, no fim das contas, a que vivamos uma história temivelmente expectante, quase sempre desconfortável e agonizada (a metáfora do protagonista sempre a olhar para o relógio é, quanto a isso, sintomática), e exageradamente melancólica, que nem o remate final consegue resgatar.

A competência do filme nos mais diversos planos é, contudo, indiscutível, desde logo em termos de produção. Visualmente (norte italiano, anos 80) é idílico, com uma fotografia brilhante e uma realização, de Luca Guadagnino, deliciada na suavidade das cores e no carisma provinciano da bella Italia, impossível de recusar. A ambas, junta uma das melhores bandas sonoras do ano, cortesia de Sufjan Stevens (na corrida deste ano para Melhor Música Original), que o superiorizam, por isso, em termos estéticos (é um filme eminentemente contemplativo), por comparação à capacidade narrativa, ao timing ou à acção.

Individualmente, Timothée Chalamet é, sem dúvida, uma das revelações do ano, com chegada aos Óscares mais do que justificada. Com apenas 22 anos, assume uma interpretação poderosa, arrojada e visceral, que define o filme, mercê do compromisso e da entrega totais ao papel, e notavelmente projetadas. É ele quem reclama o palco, também porque Armie Hammer, na sua figura muito mais estilizada e previsível, não chega a surpreender, e não consegue impressionar. Por fim, nota obrigatória para Michael Stuhlbarg e para o seu monumental monólogo final. É um daqueles bocados de texto intemporais e invejáveis, que vai sempre redimir a memória que fica, especialmente para todos aqueles que não o guardem como inesquecível.

Call Me By Your Name é um filme tão honesto, quanto ousado, artisticamente comprometido e sensível, mas não resiste ao pecado capital de ter demasiada pena de si próprio, eternizando os seus próprios obstáculos e condenando-se à impossibilidade de encontrar a plenitude. Há quem diga que só o amor não cumprido pode ser romântico; esta é a história de quem refuta esse dogma, mas não o pratica o suficiente.

6/10