terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

The Special One


11 jogos de estreia sem perder para o Solsjkaer, grandes vitórias internas e motivação impensável há dois meses, tanto que toda a gente lhe dava o favoritismo, frente aos novos-ricos sem o ataque de luxo. Mas o que deu foi banho e olés em Old Trafford. Um trambolhão na realidade para o United e uma demonstração de autoridade com violência de Paris. Deu também para ver o miúdo que, a cada jogo grande que passa, deixa de ser miúdo para ser o herdeiro dos dois maiores de sempre. É por isso que a Champions é o jogo mais especial, todos os jogos.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Somos nós


O Marítimo voltou a ganhar ontem, quatro meses depois, 17 jogos depois e muitos erros depois, contra uma equipa superior e mais bem preparada, a fazer uso de um bocadinho de sorte em cima de muito sacrifício, muitos nervos e muita falta de confiança, quis o destino que sem o nosso capitão, que se foi embora, e sem o nosso segundo treinador, que ontem não pôde estar no banco.

Foi uma vitória humilde e que saiu da pele, de uma equipa que já não sabia sair do inferno, uma vitória contra tudo, inclusive a própria sobranceria que nos trouxe até aqui, mas ainda mais do que isso, uma vitória de todos os que lá estiveram, de todos os que gritaram e sofreram onde quer que tenham estado, dos que dormiram aliviados, a pensar que uma parte da sua vida saiu dos cuidados intensivos, e de todos os que acordaram um pouco mais felizes por causa disso.

Hoje já me lembrei uma dúzia de vezes que ganhámos ao Portimonense e respiro fundo como no apito final. Haverá muitas contas a fazer a esta época onde a culpa não pode morrer solteira; mas é nos dias piores que se tem a certeza de que há sempre alguma coisa que é Maior do que as nossas frustrações, o nosso desalento ou aquilo que nos separa. E enquanto comungarmos todos desta imensa dignidade que só existe nas pequenas vitórias, feitas do testemunho e do empenho pessoal de cada um de nós, saberemos sempre o que somos e para onde devemos ir.

O Marítimo não é o projecto de poder de ninguém, o Marítimo somos nós, e vamos sobreviver a esta quase tragédia, não pela fé cega em nenhum grande líder, mas pela fé incondicional em cada homem e mulher que se senta e sofre connosco nas bancadas dos Barreiros a cada fim-de-semana, gente que nunca descarta responsabilidades e nunca se vai embora, gente que não tem nada a ganhar, mas com quem já ganhámos muito mais do que perdemos a vida toda.

Isso é o Marítimo. O meu pai, os meus amigos, os conhecidos e todos os desconhecidos com quem já tive a honra de partilhar trincheira, todos os que se estragam genuinamente, todos os que perguntam como correu porque gostavam que ganhássemos, todos os que ficam felizes por nossa causa. Isso é o Marítimo. E enquanto houver gente que saia dos Barreiros a sentir-se Campeã do Mundo porque ganhou ao Portimonense, pois há esperança.

Onde houver um Maritimista, pois há esperança, e haverá certamente esperança até ao fim desta época nua e crua, como no Bessa daqui a uma semana, ou como aquela que levarei comigo aos Açores logo a seguir, de coração cheio com a minha gente, para sermos Campeões do Mundo outra vez, ou pelo menos Campeões das Ilhas, como aprendi em pequenino num dia endiabrado, lá longe. Lá estaremos a dar a cara como sempre, a sofrer como sempre, mas a levar o Leão às costas até onde for preciso, a acreditar por nós e por todos, até ao fim do mar, até ao fim do mundo.

Haverá sempre quem queira levar o Marítimo; o Marítimo é que não vai a lado nenhum. Porque o Marítimo somos nós.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A boémia que vivemos


Os 20 minutos de recriação integral da performance dos Queen no Live Aid são uma das ideias mais simples e mais felizes que o cinema nos trouxe nos últimos anos.

A antecâmara do filme foi feita de um misto entre a antecipação sufocante, própria da enormidade que era proposta, e o temor por uma romantização demasiado esterilizada do que foram, afinal, os Queen. Talvez nunca saibamos como foram, afinal, os Queen, mas Bohemian Rhapsody é uma oportunidade extraordinária de nos lembrarmos de tudo o que já fomos com eles nalgum momento da nossa vida, como ao ouvir o Don't Stop Me Now nos créditos, e pensar que foi exactamente assim que eu, a Susana e a Andreia nos despedimos da Faculdade, há muito muito tempo, no saudoso anfiteatro de Jornalismo, na Coronel Pacheco.

Não vivemos a mesma vida, nós e o Mercury, mas já vivemos juntos muitas outras, e é essa intemporalidade que o filme nos restitui, numa vertigem do mais puro entretenimento, e do fascínio fulgurante que sempre os acompanhou. Há biografias melhores e piores, mas nunca tinha visto nenhuma com gente a cantar na sala dos 20 aos 60 anos, a reclamar propriedade dos ídolos e do tempo em que havia ídolos, de olhos a sorrirem para o ecrã, tão orgulhosos como se tivessem estado lá, se calhar porque, um dia, já todos estivemos com eles em Wembley, de uma forma ou de outra.

sábado, 10 de novembro de 2018

O casino ganha sempre


Parabéns a quem decidiu que era preciso perder na Choupana para despedir o treinador. Aconteceu o que toda a gente estava a ver que ia acontecer, depois de oito jogos seguidos sem ganhar, que incluiram ser humilhados pelo Guimarães nos Barreiros, ser varridos da Taça da Liga, e não marcar golos a Belenenses, Moreirense e, já agora, a uma equipa alentejana da 3a divisão, que teve de falhar três penalties para perder connosco no desempate. O Cláudio Braga tem a confiança, a coerência e a capacidade técnica de um pré-adolescente: chegou cheio de força, para jogar à holandesa com 4 avançados, e na semana passada perdeu contra o Porto, a jogar com 5 defesas e 3 trincos. Com mais de quatro meses de trabalho vanguardista, somos o pior ataque da liga, mudamos a equipa ao deus dará e não temos a mais ínfima noção do que estamos a fazer em campo. Deve ser uma liberdade à holandesa: não treinar nada durante a semana, tentar descobrir a pólvora com um novo esquema a cada jogo, não preparar o adversário, ter como única estratégia o corpo presente, e ora jogar com 4 avançados, ora jogar com 5 defesas, como a malta jogava em criança no recreio.

Parabéns a quem decidiu que era preciso perder na Choupana para despedir o treinador. A quem decidiu que era preciso nos sujeitarmos a esta espectacular humilhação de ser inferiores ao lanterna vermelha recém-promovido, que era a pior defesa da liga e o pior ataque em casa. Estamos todos muito mais leves agora que, em vez de jogarmos para ganhar, estamos a jogar para ver se o Presidente tem razão. O mesmo Presidente que, em fevereiro, injuriou, sabotou e despediu um treinador que lhe fez 100 pontos em duas épocas, porque ele falava muito. Estamos muito melhores assim, com um treinador de playstation e sem ninguém para levantar a voz a esta mediocridade total. Amanhã despedimos o Cláudio Braga porque ele perdeu na Choupana, não porque toda a gente sabia que ele ia perder na Choupana. Hoje passámos todos esta vergonha, menos o Presidente, que não podia admitir que estava errado até subir a serra. Hoje perdemos nós, mas felizmente há quem nunca perca na roleta. Amanhã é só mais um dia para brincar aos treinadores.

domingo, 21 de outubro de 2018

A minha pátria é a língua portuguesa


"Viva a Democracia. Viva a educação e a cultura, viva a diversidade, viva a diferença", acabam de cantar os Tribalistas em Lisboa, no melhor exemplo do que é o tamanho do Brasil, do que é a nossa História no mundo e a nossa universalidade comum, e do que é verdadeiramente a responsabilidade da língua portuguesa, e o seu legado multicultural e tolerante, no sangue e nas palavras. Em dias negros como estes do outro lado do mar, vale mais a pena lembrar que a Democracia é connosco, mas ainda mais do que isso, que o Brasil será sempre connosco.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

As pessoas que nos carregam


"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever." É assim que começa o discurso de aceitação de Saramago há 20 anos, o discurso do único português Prémio Nobel da Literatura. Muito haveria a dizer hoje sobre ele, mas nada me deixa tão feliz como recordar este discurso aos avós perante uma Academia Real, e imaginar a oportunidade de, por uma vez na vida, estarmos verdadeiramente à altura das pessoas que nos carregam. Saramago foi isso: foi as palavras que gostaríamos de ter escrito, e as palavras que gostaríamos de ter dedicado.

Para quem tiver o prazer, fica aqui um excerto desse discurso arrepiante. Se em Portugal é preciso morrer primeiro, Saramago foi um homem de sorte, porque pôde saber em vida que não cabia no país, porque era maior do que o país.

"(...) Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A viagem é a recompensa


Hoje, a tribo Ronaldo preparou-se para a estreia europeia da Juve, com o mesmo entusiasmo e a mesma ilusão da primeira vez.

Naqueles primeiros pontapés em Manchester, sobrava-nos a pureza de não poder perceber a eternidade que estava à nossa frente; hoje, no Mestalla, sobrando-nos a consciência do que é poder ver, provavelmente pela última vez, a eternidade a ficar para trás.

Tantas vidas depois, começámos juntos outra vez, com o mesmo nervo, a mesma expectativa, a mesma vertigem, a mesma comoção. Como se também fôssemos nós a estar à prova, como se também fosse a nossa vez de marcar, e a nossa responsabilidade. Porque era. Porque o legado do Ronaldo é exactamente esse: é toda esta viagem que fizemos juntos, e todas as noites e todos os golos, e todas as pequenas e grandes vitórias que ganhámos juntos, tantas vezes.

Hoje, na enésima vez em que o trataram como se fosse especial, porque ele é, destratando a história e o tempo com um insuportável ajuste de contas, já temos o dever de saber que uma das poucas coisas garantidas na vida, é que o Ronaldo volta, sempre. É essa ressurreição que nos deve confortar, tal como há de confortar quem o quis expulsar hoje.

O que custa não é, por isso, a alma em carne viva por lhe terem roubado este momento; o que custa, a crer, é o privilégio inenarrável que foram estes 15 anos.