sábado, 30 de julho de 2011

O que é um líder


«O Adebayor pediu permissão para visitar-nos e dissemos logo que sim. Esteve no balneário, contou anedotas, enfim. É um amigo. Não sei onde jogará no próximo ano, se no Real Madrid, no City ou noutro lado, mas aconteça o que acontecer será sempre um dos nossos»

Mourinho, depois da vitória (2-1) sobre o Leicester


É fácil perceber porque é que todos os jogadores que já treinou lhe devotam tamanha estima.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Seguro e a história da vida dos jotinhas


"António José Seguro é o novo secretário-geral do Partido Socialista, depois de uma campanha eleitoral interna praticamente invisível para o exterior do partido. A sua vitória era previsível, já que trabalhou para isso nos últimos seis anos, ao contrário do seu adversário, Francisco Assis, um candidato inverosímil que se concentrou, durante esse tempo, em assumir a cara parlamentar do governo socialista. Com esta eleição, os dois maiores partidos são agora dirigidos pelos responsáveis das juventudes partidárias dos anos 90.

Não tem nada de mal, naturalmente. A não ser o facto de, um e outro, terem chegado aqui através de um percurso silencioso feito pela conquista das estruturas partidárias. Nem um nem outro se distinguiram pelas suas qualidades executivas, nem na governação, nem na gestão empresarial. Nem um nem outro se distinguiram por produzirem qualquer pensamento sistematizado, uma ideia inovadora ou uma estratégia política para o futuro. Moldados desde muito jovens na lógica da luta pelo poder que caracteriza os aparelhos partidários, envolveram-se mais na gestão de afectos, na palmadinha nas costas e no telefonema ao camarada, para um, ou ao companheiro, para o outro, em dia de aniversário. O resto foi feito pela habilidade de construir meticulosamente uma imagem politicamente correcta, em função do objectivo a alcançar: ser primeiro-ministro.

Atravessamos um tempo em que ninguém espera reconhecimento pelas suas convicções e pelo seu pensamento político; em que ninguém parte a loiça, no interior dos seus partidos, como Mário Soares ou Sá Carneiro fizeram no passado. Agora espera-se. Espera-se pelo momento oportuno, como quem espera que lhe saia o euromilhões. Mas, sejamos claros: se Pedro Passos Coelho é presidente do PSD e primeiro-ministro, António José Seguro está bem como secretário-geral do PS, líder do maior partido da oposição e, quem sabe, futuro primeiro-ministro."

Tomás Vasques, no Conquilhas


As juventudes partidárias sempre foram um ódio pessoal. Entendo que a política devia ser o espaço de todos quantos se destacam na causa pública, dos que se distinguem na sua área e podem, depois, pôr as suas competências ao serviço da comunidade; ou dos que têm ideias, convicções e, acima de tudo, vontade e capacidade de contribuir, nunca de servir-se. As juventudes são o oposto. São um ninho de vícios onde se inculcam doutrinas partidárias e, sobretudo, onde prolifera o culto cego do chefe e das cores, e isso enjoa-me profundamente. Claro que existirão excepções, mas escasseia-lhes o debate, e quem lá está, está porque isso lhe há de render qualquer coisa mais cedo ou mais tarde. Estar nas juventudes é um desincentivo à reflexão crítica, e isso desvirtua tudo o que a política devia ser.

Hoje dá que pensar o facto de Passos Coelho e Seguro serem os líderes dos dois maiores partidos portugueses. Somos governados por gente que passou a vida só a ser político, seja lá o que isso for, e pior, isso é a coisa mais normal do mundo. Portugal precisa de líderes como de pão para a boca, mas a gente que podia fazer a diferença preferiu fugir à política. Mais do que nunca esta era a altura desses se chegarem à frente; em vez disso temos dois sofríveis, com passado de jotinhas-cães-de-caça, paridos das entranhas escarráveis dos aparelhos partidários.

Dizem que a primeira imagem é a que fica, e a de Seguro foi cristalina. Com o cadáver de Sócrates ainda quente, foi vê-lo em modo barata tonta, em pleno hotel Altis, a dizer que não falava, para depois anunciar que falava e não falar outra vez, enquanto gaguejava e tremelicava, num retrato profundamente penoso e patético. Seguro é anti-carismático, frouxo e discreto, tem um discurso pobre e desinteressante, e é a imagem crua de uma geração que é política de profissão, absolutamente alheia ao conceito de meritocracia.

Mais ou menos previsível, a sua vitória foi uma desilusão. Porque o PS perde tempo - e aposto que Seguro não vai durar até às próximas Legislativas -, e porque não devia ser tão natural ver um mero carreirista chegar à liderança do maior partido de esquerda em Portugal.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Do orgulho charrúa


O Uruguai também ganhou.

Estava ali tão a jeito que cheguei a duvidar, ainda por cima frente àquele exército paraguaio dos 5 empates, mas os homens de Tabárez fizeram o pós-Argentina ao ritmo de campeões.

O eterno Uruguai, o monstro adormecido da América do Sul, é hoje, como já sancionou o próprio Mourinho, a melhor selecção do continente: colectivismo, força mental, inteligência, a sua tão tradicional agressividade e centelha de génio no ataque.

Num ano, o 4º lugar no Mundial e a vitória na Copa América. Com ela, os uruguaios tornaram-se na selecção sul-americana com mais Copas (15), e mais importante, na selecção mais titulada a nível mundial (20). Com o gigante de volta à ribalta à laia de conto de fadas, até houve espaço para uma daquelas histórias apaixonantes: Dieguito Forlán foi só o terceiro da família a levantar o troféu. Antes dele, pai e... avô já o tinham feito. Legado deve ser isto.

Mérito, acima de todos, do velho Tabárez, e de um projecto de futebol que é seu de ponta a ponta. Em campo, Suárez e Forlán são a cara (8 anos de diferença entre os dois e parece que jogaram juntos toda a vida), mas é impossível dissociar Muslera, Maxi, Lugano, Cáceres, Rios, Pérez e Álvaro. O que, ao fim e ao cabo, fala por si. Pena ainda faltarem três anos para o Rio de Janeiro.

Pessoas que merecem


E Evans ganhou mesmo. O eterno segundo (duas vezes no Tour, quatro no Dauphiné!) chegou finalmente ao céu, num contra-relógio de último fôlego verdadeiramente extraordinário, saído do fundo da sua alma. Apesar de ser especialista na disciplina, confiava na moral com que Andy Schleck correria em Grenoble, consciente de que estava a uma unha negra de vencer finalmente, depois da incessante sombra de Contador nas duas últimas edições. O minuto com que entrou na última etapa não esteve, contudo, sequer perto de ser suficiente para conservar a amarela conquistada nos Alpes, e, aos 26 anos, o Schleck mais novo comete a proeza de ficar em segundo pela... terceira vez. Nos últimos anos tinha sido ele o único a dar luta a Contador. Desta vez, com o caminho livre, não esteve ao nível das responsabilidades, e, nos próximos anos, terá de bater o estigma abissal que criou.

Para Evans é uma vitória extraordinária, por tudo. Porque a conseguiu na última etapa, porque já tinha 34 anos (foi o terceiro vencedor mais velho de sempre!) e, sobretudo, porque o destino nunca pareceu querer nada com ele. Como li na Marca, os próprios Schleck preocuparam-se sempre mais com Contador porque, no fundo, estava toda a gente à espera que lhe acontecesse alguma coisa, como de costume.

Afinal, o homem que até já foi bicampeão mundial de mountain-bike e campeão do mundo de estrada teve finalmente a única vitória com que sempre sonhou. No Inverno já o garantia: "Ainda tenho uma palavra a dizer: com ou sem Contador sou candidato à vitória." E sabia-o bem. Nunca fui seu fã, mas o australiano fez um Tour belíssimo, e é um daqueles tipos que merecem: sem ser espectacular, deixou a alma toda na estrada, e, na última oportunidade que teria para ganhar, fintou o destino. É daquelas histórias de que se gosta.

Contador ainda lá esteve a dar espectáculo nos Alpes, e em parelha com Samuel Sanchéz - imagine-se o espectáculo! -, mas não foi suficiente, como se esperava. Ainda assim, o melhor do mundo caiu como um campeão, na primeira grande Volta em que competiu mas não venceu, desde 2007. Para o ano estará lá, como novo.

Thomas Voeckler é o herói desta Volta e, apesar de ter falhado o pódio, vai no coração de toda a gente, como nenhum outro francês em anos e anos; Samuel Sanchéz foi tão monumental como sempre, e, além de um brilhante 6º lugar, sai como rei da Montanha, uma camisola feita à sua medida. E lembrar ainda Cavendish, a locomotiva que cresce em lenda de ano para ano. Mais 5 vitórias, uns números impensáveis. Há 7 ou 8 anos, quando comecei a ver ciclismo, nunca pensei ver algum sprinter melhor que McEwen...

Um grande Tour, indiscutivelmente.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Visca el Barça

COPA AMÉRICA 2011: Argentina 1-1 Uruguai (4-5 a.g.p.)


Ficará na memória como o melhor jogo desta Copa América.

O mítico clássico do Rio da Prata foi tão intenso e emocionante como poderia ser. Houve quase tudo - 2 golos, 2 expulsões, 3 bolas aos postes, tanta técnica quanto dureza, um ror de jogadas de perigo eminente e muitas fases diferentes -, e podia ter pendido para qualquer um dos lados, mas no fim seguiu em frente quem era colectiva e mentalmente superior. Para os uruguaios o desfecho é tanto mais místico pelo dia em que aconteceu: a 16 de Julho de 1950 a Celeste sagrou-se Campeã do Mundo no Maracanã, derrotando o anfitrião Brasil na final, num dos jogos mais lendários da História do futebol. 61 anos depois do Maracanazo, foi a Argentina a sentir na pele o que é ser eliminada em casa.

Acima de tudo, esta foi uma derrota sua a todos os níveis. A passagem do Uruguai não é surpreendente, porque toda a gente sabia o valor dos homens de Tabárez, mas os argentinos jogavam em casa e tinham, de longe, o mais luxuoso plantel da competição. Para cúmulo, foram eliminados depois de 50 minutos em superioridade numérica, o que fala por si.

Curiosamente a expulsão de Diego Pérez foi nociva para o futebol argentino. O Uruguai marcou muito cedo, mas a Argentina empatou com facilidade, e acabou por dominar toda a primeira parte, com Gago, Messi e Higuaín em destaque. Diminuídos, os uruguaios recorreram a um autêntico festival de pancadaria e, apesar de terem acertado duas vezes na trave (benditas bolas paradas de Forlán), a cambalhota argentina parecia uma questão de tempo, ainda mais aquando da expulsão. Contudo, em vez do cheque-mate... a Argentina assustou-se.

O Uruguai voltou dos balneários refeito do golpe e confiante na sua prodigiosa força mental, e o futebol de Messi e companhia perdeu quase todo o rasgo. Lugano, Rios e Álvaro Pereira fizeram grandes exibições, mas é obrigatório destacar o jogo extraordinário de Forlán e Suárez: a maneira como, em inferioridade, moeram a defesa argentina não estaria ao alcance de muito mais duplas por esse mundo fora.

Ainda que tarde, Batista apercebeu-se da falta de clarividência na construção e lançou Pastore muito bem, acertando também na entrada de Tévez para abanar com o ataque. O último quarto-de-hora viria a ser verdadeiramente infernal, com a Argentina a criar muitas oportunidades, e a fazer emergir Fernando Muslera como figura da noite, enquanto defendia possíveis e impossíveis. A bola não entrou, o Uruguai respondeu e Mascherano acabou expulso em cima da hora, aniquilando as últimas réstias de moral argentina.

A Alviceleste até dominou o prolongamento, mas cedo se adivinharam os penalties, tal como quem sairia deles vencedor. O esgar de Batista quando o arbitrou apitou o fim dos 120 minutos disse tudo.

A Argentina saiu pela porta dos fundos e reafirmou a sua incapacidade para arranjar um treinador que capitalize tamanho talento individual; Messi prossegue a via sacra com a Selecção; e, com a sangria que foram os quartos-de-final, os uruguaios tornaram-se nos grandes favoritos ao título. Até pode nem sempre gostar-se do seu futebol, mas é impossível não ficar rendidos à sua alma.

domingo, 17 de julho de 2011

Tour 2011: Os Pirinéus


Se há coisa que ficou clara é que este não é o Tour de Contador. O melhor do mundo sobreviveu aos Pirinéus e até pode chegar aos Campos Elísios de amarelo, mas sofreu a bom sofrer, e o facto de ter acompanhado os rivais não mascara a situação: um Contador em forma teria sempre atacado, e nos Pirinéus só se defendeu, ainda por cima com 2 minutos de atraso. A falta de confiança do Pistolero no seu primeiro grande teste é um indício bastante desencorajador, ainda que siga vivo e tenha prolongado a discussão até aos Alpes.

A grande figura da campanha acabou por ser o improvável Thomas Voeckler. Não é novidade que o francês esbanja resistência e disposição, e que sempre foi competente nas montanhas, mas ninguém esperaria, por certo, que cruzasse os Pirinéus de camisola amarela a responder a todos os ataques, e ainda por cima num grupo absolutamente restrito de 8 ciclistas, com todos os grandes líderes, que terão de fazer bem melhor do que até agora para recuperar os 2 minutos que perderam para ele.

Samuel Sanchéz foi a outra estrela. O basco ganhou uma das duas grandes etapas da cordilheira, e fez segundo na outra, e é o mais espectacular dos grandes nomes do Tour: fortíssimo na alta montanha, ataca sempre e não tem pejo em ir embora sozinho. Por ter perdido tempo nos primeiros dias tem gozado de uma certa desconsideração por parte dos adversários mais directos, mas já vai no 6º lugar e, na forma em que está, há de dar muitas dores de cabeça nos Alpes.

Sem menosprezar Contador, os maiores favoritos ao pódio não mexeram com a corrida, passando pelos Pirinéus incólumes, e reservando a decisão para os Alpes. Dos três, quem esteve melhor foi Frank Schleck, que continua a demonstrar maior personalidade do que o irmão, e também por isso está 30 segundos à sua frente. Com Contador a correr por fora, Andy Schleck tem sentido a responsabilidade, e parece bem menos pujante do que nos últimos anos. Já Cadel Evans, depois de um início forte, limitou-se a passar tranquilo, e, mesmo com 15 segundos de atraso para Frank, sabe que é o mais forte dos três no contra-relógio.

Reconhecer também a bela prova dos italianos, que desvalorizei: o experiente Ivan Basso, depois de tempos turvos, tem demonstrado um grande coração e até tem liderado subidas, ao passo que Cunego, aos 29 anos, mostra finalmente maturidade e, mesmo sem grande capacidade para incomodar, não deixará fugir o primeiro top10 no Tour da sua carreira. Kloden, pelo contrário, já foi embora, pondo o ponto final na Volta da Radioshack (sobram Paulinho, Zubeldia e Leipheimer para alguma fuga), e Gesink e Tony Martin não existiram.

Seguem-se agora cinco dias calmos (com um de descanso pelo meio), antes dos três que decidem o Tour: Galibier, Alpe-d'Huez e contra-relógio em Grenoble. Claro que não consigo deixar de esperar por Contador, e que simpatizo sobretudo com Sanchéz, mas a apostar seria em Cadel Evans. E torço para que apareça Paulinho.