domingo, 17 de outubro de 2021

Tá na Hora


A minha geração não se apaixonou pelo Marítimo. A minha geração apaixonou-se por uma ideia do que tinha sido, e do que podia ser, o Club Sport Marítimo. Em retrospectiva, 22 anos depois da primeira vez em que entrei nos Barreiros, é cruel a realização de que quase tudo o que sonhamos, foi um sonho adiado. Os que vieram antes de nós, viveram muitas coisas: nos anos 20, fomos Campeões de Portugal; nos anos 50, fizemos as grandes campanhas além-mar; nos anos 70, chegámos à 1ª Divisão; nos anos 90, chegámos à Europa. Os que vieram antes de nós, viveram muitas coisas; a nós, tocou-nos sobreviver a coisas demais, e não me parece que em circunstâncias piores do que as dos fundadores, ou de todos aqueles que dobraram os nossos marcos históricos.

Na próxima sexta-feira, dia 22 de outubro, os sócios do Marítimo serão chamados a escolher, pela primeira vez num quarto de século, entre duas visões distintas para o futuro do clube. Todos terão as suas razões e motivações para votar, e é fundamental que o façam. Não me parece, contudo, que nenhum tenha como ignorar que o atual projecto desportivo do clube está completamente esgotado. Isso pode não ser suficiente para votar na mudança, mas essa será, em todos os casos, uma escolha perfeitamente consciente, e de acordo com a forma como cada maritimista olha para o seu clube e projecta o futuro do seu clube.

Quem aprecia o Marítimo de serviços mínimos, completamente esvaziado de ambição, mística e identidade, não só divorciado dos adeptos, como confortável com essa distância, não só gerido como uma empresa sem alma, mas propositadamente gerido para decapitar terceiros e sanear expectativas, está no seu direito. Aos outros, aos que se apaixonaram pela ideia de um clube feito de carne, osso e esperança, para o qual não havia apenas limitações, mas infinitas possibilidades, compete-nos, uma vez mais, estar à altura da nossa História, e ser o que o Marítimo foi a vida toda: não o que nos dizem que podemos ser, mas a transcendência daquelas que sempre foram as nossas circunstâncias.

Uma das primeiras imagens que tenho do Rui Fontes, em cassete, é vê-lo em comoção nos Barreiros, na primeira vez que nos qualificámos para a Taça UEFA. Que loucura, que euforia pura, que feito extraordinário. Que alegria. Já não somos esse Marítimo, mas tenho a certeza de que muitos, como eu, gostavam de ser. Eu gostava de começar uma época, ou duas ou três seguidas, sem que ninguém me dissesse o que é que não seremos capazes de fazer. Eu gostava de ir a jogo, em casa e fora, sem estar preparado para perder ou empatar, e gostava de perceber, por uma vez, quais os valores da minha equipa em campo ou o que raio queremos ser. Isto é tão básico e, de perfil aleatório em perfil aleatório, dos treinadores aos jogadores, não sabemos há tanto tempo. Eu gostava de olhar para a tribuna, e ver um Presidente que acredita como nós, que festeja como nós e que se afecta como nós. 

Alguns poderão dizer que isso não vale nada, que gestão não se compadece com militância e emoção, que é preciso ter os pés enterrados na terra, património e garantias bancárias. Eu, pessoalmente, nunca vi património e garantias bancárias a encher estádios de gente e a ganhar jogos de futebol. Se o Marítimo tivesse sido, ao longo da sua História, uma construtora civil ou um banco, nunca teria sido o Marítimo. Sem gente, sem a paixão e a ilusão das pessoas, não temos, nem nunca teríamos tido razão de ser.

O Marítimo precisa de propósito, precisa de objectivos, precisa de uma filosofia consentânea com a nossa História e a nossa identidade, precisa de voltar a querer ser alguma coisa para além de uma SAD tecnocrata, que serve de entreposto a uma mercadoria chamada jogadores. Um clube de futebol não é uma sociedade anónima desportiva, um clube de futebol é uma comunhão dos sonhos, das vontades e das ambições de pessoas reais, e se não for isso, não é coisa nenhuma.

Ninguém quer ser mediano e sofrível a vida toda. O Marítimo tem de voltar a ser Domingo no Caldeirão com um sorriso na cara, a entrar e sair orgulhoso, porque ganhamos e perdemos com as nossas ideias. O Marítimo é sofrer, mas precisa de voltar a sofrer com propósito, acreditando que, por mais conscientes que estejamos das nossas limitações individuais, regionais e institucionais, juntos não há superação que não seja possível. Sozinhos não somos grandes, mas juntos, o Marítimo pode ser.

Aconteça o que acontecer na próxima sexta-feira, o futuro do Marítimo depende de mudar muita coisa. O clube precisa de uma estrutura desportiva que não seja um devaneio de poder unipessoal, precisa de muito mais competência, critério e profissionalização, precisa de gente que goste de futebol e que perceba de futebol, gente que goste do Marítimo, mas que, acima de tudo, perceba o que é o Marítimo. Podemos ter todos a certeza de uma coisa: não é possível ter resultados diferentes, se continuarmos a fazer tudo igual. E que não nos equivoquemos: a atual Direção até poderá voltar a ganhar, mas a mudança é irreversível. Neste momento, enquanto prosseguimos a via sacra do 4º ano seguido de humilhações a jogar para não descer, a única coisa que ainda podemos decidir, é como, e em que divisão, queremos que essa mudança aconteça.

As eleições da próxima sexta-feira vão confrontar duas propostas muito diferentes, mas vão sobretudo representar uma decisão histórica entre aquilo que nos conformamos a ser, e aquilo que já fomos e que podemos voltar a ser. Claro que não é fácil e que nada mudará sem dificuldades, como num passe de mágica; mas o problema do Marítimo é que deixámos de ser muitos a sonhar aos poucos, para ser cada vez menos a morrer aos poucos.

Quando surgiu a primeira notícia de que o Rui Fontes poderia regressar, enviei-a por whatsapp ao meu pai de madrugada. Quando acordei na manhã seguinte, a resposta era: "este é maritimista". É um reconhecimento tão simples, como sagrado para o meu pai, que ele reserva de forma quase marcial para aqueles que lhe merecem o mais alto respeito. Não me disse se o Rui era um bom gestor, ou um bom empresário, não me falou do dinheiro do Rui ou dos contactos do Rui, não me disse se o Rui é que recruta os jogadores, ou se dá a táctica ao treinador. Disse-me que o Rui é maritimista, e isso basta-me. Na próxima sexta-feira, votarei pela primeira vez na minha vida numas eleições do Club Sport Marítimo e depositarei os meus 20 votos no Rui Fontes, consciente de que ele já cometeu erros, e que voltará a cometê-los, mas com a certeza de que nunca precisamos tanto de ser maritimistas em primeiro lugar, como agora. 

domingo, 25 de abril de 2021

Óscares 2021 - Preview


Top 10 do Ano

1. Nomadland

2. Sound of Metal

3. Tenet

4. Promising Young Woman

5. Da 5 Bloods

6. Another Round

7. Pieces of a Woman

8. Mank

9. News of the World

10. One Night in Miami


Os melhores

FILME: Nomadland

REALIZADOR: Chloé Zhao (Nomadland)

ACTOR: Riz Ahmed (The Sound of Metal)

ACTRIZ: Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)

SECUNDÁRIO: Paul Raci (The Sound of Metal)

SECUNDÁRIA: Glenn Close (Hillbilly Elegy)

ARGUMENTO ORIGINAL: Promising Young Woman

ARGUMENTO ADAPTADO: Nomadland


As apostas

FILME: Nomadland

REALIZADOR: Chloé Zhao (Nomadland)

ACTOR: Chadwick Boseman (Ma Rainey's Black Bottom)

ACTRIZ: Viola Davis (Ma Rainey’s Black Bottom)

SECUNDÁRIO: Daniel Kaluuya (Judas and the Black Messiah)

SECUNDÁRIA: Youn Yuh-jung (Minari)

ARGUMENTO ORIGINAL: Promising Young Woman

ARGUMENTO ADAPTADO: Nomadland

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O Marítimo que esta geração nunca foi


Nunca vi o Marítimo descer. Espero sinceramente que não seja preciso descer de divisão para que se mude o que é preciso mudar.

Escrevi há três meses que, pela terceira época consecutiva, íamos jogar para não descer e, pela terceira época consecutiva, não vamos apenas vaguear no ocaso humilhante da segunda metade da tabela; vamos literalmente jogar pela vida enquanto ela sobrar, com o estádio vazio, sem rumo e com o peso da inevitabilidade às costas, maior a cada ano que passa. O povo diz que tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia já não volta, e esta vertigem de morte que se apoderou do clube começa a ser demasiado abissal para nos tentarmos convencer do contrário. No fundo, é apenas lógica: não nos podemos colocar sempre numa situação-limite, e achar que vai sempre haver um milagre; não podemos fazer sempre a mesma coisa, e esperar resultados diferentes. Nos últimos 20 anos, desceram de divisão o Guimarães, o Boavista, o Setúbal, a Académica, o Belenenses e o Nacional, e na verdade, é óbvio que já nos podia ter acontecido nas últimas duas épocas, que pode acontecer este ano, e que acontecerá inevitavelmente em breve, se continuarmos assim.

Às vezes, gostava simplesmente de acreditar que o problema é a bola que vai ao VAR e entra, e a bola que vai ao VAR e sai. Que o futebol é só o universo a jogar aos dados, que uns dias se ganha e uns dias se perde, que o jogo é sorte e azar, e que no fim vai correr tudo bem. É que pelo Marítimo, já sofri a vida toda. Costumo dizer que ser adepto do Marítimo nos prepara para quase tudo, porque, tal como na vida, há menos finais felizes do que dos outros. Ser do Marítimo dá-nos estofo para lidar com o desterro das maiores derrotas, e dá-nos carácter para ficar felizes com a beleza das pequenas vitórias, e aprendemos todos a viver com isso, mesmo com as prioridades que se sacrificam pelo caminho, seja tempo com quem gostamos, seja qualidade de vida a fazer algo mais saudável. Seja como for, ser do Marítimo é o maior orgulho da minha vida. Vou ser do Marítimo até morrer, aconteça o que acontecer, e até ao fim do mundo, onde quer que estejamos. Portanto, o problema não é sofrer; é a absoluta falta de razões para continuar a sofrer assim.

Este ano, é mais real do que nunca a possibilidade do Marítimo descer, e perturba-me que tenha sido preciso chegar a isto, quando os sinais foram tantos e tão evidentes. E perturba-me ainda mais que, se calhar, nem esta situação seja suficiente para que toda a gente perceba a necessidade de mudar. Este ano, é mais real do que nunca a possibilidade do Marítimo descer, e não é porque estes jogadores surpreendentemente estão em sub-rendimento ou não correm em campo; não é porque este treinador, ou o anterior, surpreendentemente não conseguiram dar conta do recado; na verdade, não há nada de surpreendente, ou sequer de misterioso, sobre o estado atual do Marítimo. Surpreendente é não ter acontecido nada ainda mais grave, ainda mais cedo.

O atual projecto desportivo do Marítimo falhou, porque já não há projecto nenhum há muito tempo. Quando o atual Presidente entrou em funções, era preciso salvar as contas do clube. Depois, a prioridade foram as infraestruturas. Na verdade, e não querendo ser ingrato, o futebol foi sempre um projecto desportivo adiado no Marítimo. Normalmente, a sobrevivência não é um assunto linear, pelo que me parece que todo o maritimismo aceitou que tínhamos de saber esperar. Não sei, na verdade, se haverá outra base associativa tão significativa como a nossa, e tão extraordinariamente paciente. No último quarto de século, tivemos consolidação financeira, consolidação estrutural e alguns bons resultados, mas sobrevivemos sobretudo à conta de migalhas desportivas, enquanto vimos, por exemplo, o Braga tornar-se no quarto grande, o Guimarães ganhar uma taça, o Paços de Ferreira chegar à Liga dos Campeões e o Nacional fazer dois quartos lugares.

A tudo subsistimos, firmemente agarrados à convicção de que a vida é difícil, e de que talvez um dia chegasse a nossa vez, mesmo que as prioridades dissessem sempre o contrário, ao vender urgentemente os melhores jogadores, contratar futebolistas às centenas e sem critério, na esperança de lucrar com a economia de escala, como noutra empresa qualquer, e rodar perfis de treinadores de forma completamente aleatória, como se alta competição fosse a roleta russa. O problema do Marítimo não é evidentemente a bola que bate no poste e sai, nem o facto de 99% dos profissionais que cá chegam não cumprirem as "expectativas", porque se calhar temos azar; o problema do Marítimo é que quem tem a responsabilidade de decidir, há muito descarnou o clube, porque é mais fácil e mais rentável gerir uma empresa de retalho, onde só interessa cumprir os mínimos, não dar prejuízo e sobreviver. O problema do Marítimo é que estamos fartos de sobreviver, porque sobreviver não é vida para ninguém.

A este Marítimo falta quase tudo. Falta visão, ambição, projecto e identidade. Falta brio, coerência, humildade e a mais elementar noção para reconhecer que aquilo que temos vivido, não é nada num clube de futebol, e que é preciso mudar e saber porquê. Como se isso não bastasse, falta até o discernimento para saber dar o valor ao mérito, quando ele é mais evidente. De vez em quando acontecem-nos fenómenos como o Daniel Ramos, um homem sozinho que fingiu que era um projecto desportivo, e que inventou dois anos de esperança. Fizemos 97 pontos nessas duas épocas, as últimas duas em que lutámos pela Europa. Chegámos lá uma vez, e ficámos mais de um ano sem perder em casa. O Presidente despediu-o, porque não podia ser o treinador a mandar no futebol do Marítimo. Desde a saída do Daniel, tivemos 6 treinadores e, em duas épocas e meia, 6 treinadores conseguiram fazer menos pontos juntos do que ele sozinho. É este o cúmulo em que vive o Marítimo há muito tempo.

Ao fim de 35 anos, o abismo da descida está iminente, e este é o derradeiro momento para lembrar que nunca ninguém esteve, nem nunca ninguém estará acima do Club Sport Marítimo. Há, por isso, duas coisas que para mim são fundamentais neste momento. A primeira é reconhecer que a equipa precisa de todos nós mais do que nunca, porque esta será uma luta brutalmente dura até final da época, com tudo em jogo. Espero que ninguém se afaste do Marítimo nesta altura porque não se revê na liderança, porque isto não é sobre nós, é sobre algo maior do que nós. Hoje e sempre, mas especialmente até ao final da época, não podemos desistir do Marítimo, e o clube só passará por isto se ninguém ficar indiferente.

Finda esta época, e aconteça o que acontecer, a atual Direção não tem condições para continuar. O que espero de quem está no poder há 25 anos, perante este momento determinante, não é negação, absolutismo e amargura, não é dizer que quem assina manda, nem chamar a polícia para intimidar adeptos, muito menos intitular-se donos da História e alimentar a narrativa de que não existem alternativas.  Neste momento, o que não existe no Marítimo é futuro. Se quem está no poder ainda quer honrar o que de bom ficou para trás, só lhe resta não ser um obstáculo, mas uma solução, pelo bem do clube.

O Club Sport Marítimo é demasiado grande para não ter alternativas. Esta era do Marítimo acabou e será a História a julgá-la. Agora é preciso dar lugar a outros, é preciso fazer uma transição responsável, e fazer a ponte entre o passado e o futuro. Acredito que o destino do Marítimo depende de todos, inclusive dos que ainda lá estão a mandar, e que a atual Direção deve ter um papel importante a desempenhar, dignificando o próximo capítulo na vida do clube. Tem é de perceber imediatamente, com seriedade e compostura, que uma coisa é chegar ao fim da linha, e outra é levar o clube consigo.

Quando a História julgar este quarto de século, começará pelo fim. Quem ainda não o percebeu, vai percebê-lo mais cedo ou mais tarde. Os jogadores, os treinadores, os presidentes e até os adeptos passam, mas o Marítimo fica. Só o Marítimo é que nunca acaba. Não sei se teremos de começar do zero, mas eu ainda gostava de ser o Marítimo das grandes campanhas, o Marítimo da alegria, da pureza e da mobilização popular única, o Marítimo da altivez, da ambição e dos sonhos da nossa gente, o Maior das Ilhas, a bandeira da Madeira atlântica e ultraperiférica pelo país e pelo mundo, o Marítimo temido, o Marítimo do dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio, como o fizemos tantas vezes ao longo destes 111 anos.

Eu ainda gostava de ser o Marítimo que o meu pai viu por entre a multidão no tartan dos Barreiros e para o qual não havia limites, só infinitas possibilidades. O Marítimo que se fez grande na Liga, ou o primeiro Marítimo que foi à Europa e ao Jamor. Está na hora de sermos o Marítimo que esta geração nunca foi. Está na hora.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

La vida es una tómbola

Não sei se Deus existe. Sei que se existisse, havia de ser como ele. Custa bastante escrever isto hoje, porque custou bastante a acreditar. Se Deus existisse, não havia de morrer. Custa bastante escrevê-lo já, porque parte de mim ainda acredita que ele pode voltar, que há sempre tempo para mais um drible, que quem já ganhou um Mundial e uma guerra sozinho, pode bem ganhar à morte. Custa bastante escrevê-lo enfim, porque se nunca estivemos à altura do que ele foi em vida, jamais estaremos à altura do que ele é agora. Custa bastante escrevê-lo, como teria custado a outro apóstolo de outra religião qualquer. 

Custou a aceitar, mas como noutra religião qualquer, percebi que este seria provavelmente o seu último milagre. Nunca tinha visto tanta gente a falar em Deus numa rede social. Muita gente leu, e não compreenderá o exagero, não compreendendo que o exagero não é nosso, era dele. Não sei se Deus existe. Sei que se existisse, havia de ser assim. Puro, omnipotente, benigno, genial. Perfeito nunca, porque perfeito nenhum de nós é, e teríamos sido feitos à sua imagem.

O que o tornava único era a sua verosimilhança. Era ser intuitivamente genuíno em tudo o que fazia, sem fazer de propósito, nunca com lições de moral, mas sempre do lado certo. Lutando a luta certa, enquanto nos mostrava, a nós comuns mortais, que é possível fazê-lo mesmo se tropeçarmos em todas as armadilhas da vida, sem que isso tenha de beliscar aquilo que somos. Ele mostrava que até os deuses são humanos na maior parte do tempo e que, se calhar, todos podemos tocar em Deus de vez em quando, mesmo sem todo aquele talento, mesmo com todas as nossas falências. 

Para alguém que respira futebol desde que se lembra de respirar, custa bastante despedir-se de Diego Armando Maradona, porque ninguém devia ter de se despedir da pedra sobre a qual construiu a sua Igreja. Ele é o mais importante de todos, ainda que, tal como a Deus, se ele existir, nunca o tenha visto ao vivo, ou em directo. O bom da fé é que não precisa de ser mundana. Somos tantos os que não o viram, mas sentiram, que é fácil constatar que Maradona não é só o futebol que jogou. Maradona é um herói que, por acaso, foi o maior futebolista de todos. 

É um herói pela forma como ganhou, e como perdeu. Um herói real, de carne, osso e alma perante todas as suas extraordinárias circunstâncias, que arranjou sempre forma de fintá-las e de se agigantar, e ser maior do que o jogo, e maior do que a vida. Uma vez li que qualquer comparação era escusada entre ele e os nossos dias, porque mais ninguém seria capaz de carregar a cruz daquele talento como ele carregou. Mais ninguém seria capaz de ganhar sozinho como ele ganhou, transformando equipas banais em equipas extraordinárias, só com um pé esquerdo, uma mão divina e uma aura em forma de juba. 

El Diego até podia ser Deus, mas antes disso era Povo. Era um ídolo popular único, um ícone anti-sistema, sempre a ferver com a bola colada ao pé ou o coração colado à boca, sempre pronto a tomar as dores de quem precisava de ser defendido, como se as suas não bastassem. Ser indiferente é a pior coisa que se pode ser na vida. Maradona tomou sempre partido. Vestiu sempre a camisola. Enfrentou sempre o politicamente correcto, custasse o que custasse. E custou, porque aquilo que nunca lhe perdoaram não foram os erros, foi a rectidão. Sempre que o tentaram derrubar, tentaram pelo carácter, sem perceberem que por aí nunca haviam de lá chegar. Tal como à bola, no carácter ele chegou sempre primeiro.

Fê-lo pelo povo da Argentina, após a guerra das Malvinas, ganhando em campo o que mais ninguém podia ganhar lá longe nas trincheiras, em horário nobre e aos olhos do mundo, quando o mundo não queria ver; fê-lo pelo povo de Nápoles, ganhando em campo o que a Itália pobre do Sul jamais poderia ganhar fora dele; e fê-lo pela gente comum, atirando-se contra o imperialismo e contra os poderes instalados, como a FIFA corrupta, que nunca o absolveu, mas que nunca o pôde ignorar.

Fê-lo, acreditarei sempre, consciente da fragilidade da condição humana, da sua e da nossa, consciente de que tudo isto é demasiado curto para torcer em vez de quebrar quando se acredita nalguma coisa, consciente de que a vida é uma lotaria e que coragem é ter medo, mas ir na mesma. Consciente de que ele podia ir até ao fim do mundo sozinho, para que nós não tivéssemos de ir, como naquela descolagem cósmica no dia 22 de Junho de 1986, quando Victor Hugo Morales narrou o golo do século numa epifania como não houve outra igual, enquanto clamava ao céu, "de que planeta vieste, para deixar pelo caminho tanto inglês?", tanta injustiça, tanta opressão, tanta desigualdade, tanta provação, tanta imperfeição, tanta falha? É sempre possível encarar os nossos obstáculos e ir mais longe. Deus é acreditar nalguma coisa, mesmo se formos os únicos.

Não sei se Deus existe, mas se existir, não morreu hoje. Se existir, talvez tenha só voltado para o seu planeta.

sábado, 16 de maio de 2020

O Bicho que nos salvou


Não me parece que seja possível algum dia esquecer aquele primeiro silêncio, quando acabou o último directo do Bruno na quarentena.

Foram tempos extraordinários, estes que vivemos, que provavelmente só conseguiremos processar daqui a muitos anos. Num dia tínhamos a nossa vida normal e, no dia seguinte, passámos a ter a nossa vida de filme, encerrados em casa, com cidades desertas, uma pandemia na rua e o mundo em suspenso. Ninguém teve tempo de se preparar, nem sequer para a ideia; só tivemos tempo de fugir e esperar que, como nos viriam a lembrar ao longo de muitas noites depois disso, numa frequência clandestina de sobrevivência, havia de correr tudo bem.

Na vida, nem sempre há heróis, mas nos filmes sim, e o Bruno, perante circunstâncias nunca vividas, foi o herói que o país precisava que ele fosse. Escrevo isto sem qualquer pejo, nem ponta de hipérbole. Ao longo de dois meses especialmente difíceis, em que tivemos de deixar de parte quase tudo o que gostávamos, e em muitos casos, as nossas próprias pessoas, o Bruno teve a bondade de estar em directo todas as noites a garantir que pelo menos a sanidade ficava.

O Bruno, temos isso hoje perfeitamente claro, é um dos melhores do mundo naquilo que faz. Não sei se mais alguém nas circunstâncias dele, com o poder que ele reuniu nas mãos, teria tido a grandeza e o altruísmo de levar o Bicho como ele levou. De levar o carinho e a vulnerabilidade e a esperança das pessoas como ele levou. É por isso que os melhores são os melhores. Outros infinitamente menos talentosos teriam sucumbido ao proveito próprio, ao negócio e à oportunidade. Mas não o Bruno. Nós que lá estivemos, sabemo-lo demasiado bem. Com o Bruno, e contra tudo o que podia ter sido, foi sempre pela gente. Pelos amigos dele e por cada um de nós que lá foi por bem, só para beber um pouco de luz na escuridão. Numa era marcada pela urgência da megalomania digital, o Bicho foi um portal para outro encanto qualquer. Foi pureza, honestidade e temperança, foi o melhor que há na amizade e na cumplicidade, foi de coração.

Por muitas coisas que viva, nunca me poderei esquecer da singularidade daquela despedida ontem. Das varandas de Lisboa, e dos quatro cantos do país e do mar, da Madeira até ao Pólo Norte, iluminados de Natal, e da quantidade de gente que fez questão de aparecer, ou de escrever ou de ter um pequeno gesto onde quer que estivesse, só para dizer "obrigado", até ele deixar de conseguir falar e de nos emocionarmos a todos. O Markl disse a dada altura que aquilo era como um final feliz de um filme em que o herói salvou o mundo. Por mais coisas que viva, sei que não voltarei a estar num coliseu que durou dois meses e que acabou com 170 mil almas em directo, um coliseu do tamanho e da distância de onde quer que tenha estado um português a acender as luzes de Natal na varanda, no dia 15 de Maio de 2020, em homenagem ao gajo que nos salvou.

O Bicho não foi só a experiência cultural, imortal e paranormal de uma geração, foi o nosso Live Aid dentro de casa, e ontem dentro de cada uma das nossas ruas, foi o fim do Seinfeld de um país pequeno à beira do mar, mas com um génio, e um coração e uma identidade e uma humanidade absolutamente comoventes. Não me parece que seja possível algum dia esquecer aquele primeiro silêncio, quando acabou o último directo do Bruno na quarentena. Mas não foi um sonho. Porque depois fui à varanda e ainda estávamos lá, a brilhar. Vai correr tudo bem.

sábado, 25 de abril de 2020

Abril, a urgência e a responsabilidade


A Ditadura em Portugal durou 48 anos.

Ceifou vidas e ceifou gerações. Foi o mais longo regime autoritário do século XX na Europa Ocidental. Não sei se temos noção de que somos livres há menos tempo do que fomos oprimidos. Hoje, temos a sorte de poder esquecer. Quem viveu e morreu perseguido e preso, torturado, assassinado ou condenado à indignidade, ao atraso e à pobreza, não se esqueceria com certeza. Temos essa sorte. Pergunto-me, em dias como hoje, quanta gente gostaria de ter podido viver isto, pelo menos uma vez. Quanta gente gostaria de ter podido sonhar com esta utopia de 46 anos de liberdade e que morreu sem um pingo de esperança no país que deixava aos filhos, porque não teve essa sorte. Pergunto-me, em dias como hoje, quantas gerações de portugueses foram aconselhadas a não sonhar, a não ter esperança e a não quererem ser livres, pelo seu próprio bem. Quantas gerações, no caso dos madeirenses até muito depois da Revolução, foram educadas a ter medo de ter uma opinião, uma consciência e a ser gente de corpo inteiro, sem vergonha, sem comiseração e sem miséria.

O bom de Abril é que toda a gente é livre de fazer o que quiser. De comemorar ou não comemorar a Revolução, de ser indiferente ou apaixonado, de acreditar nela ou de desprezá-la. Num país que passou metade do último século pisado e humilhado, é normal que a Democracia ainda desconforte muita gente. É essa a raiz da sua superioridade moral. A mim não me deixa de custar, no entanto, que num país que vive há menos tempo em democracia, do que viveu em ditadura, pareça faltar sentimento de urgência, propósito e convicção. O 25 de Abril acertou em quase tudo. Melhorou quase tudo, transformou-nos em quase tudo. Mas se pecou nalguma coisa, talvez tenha sido na sua falta de auto-estima. Na educação para a cidadania e no combate ao abismo da memória. Para mim, restituir esse caminho é uma questão de dever cívico. Não tenho dúvidas de que o povo estima o 25 de Abril, mas não tenho a certeza se percebe a sua preponderância e a sua actualidade, quando num dos momentos mais difíceis, inéditos e imprevisíveis da nossa História Moderna, tanta gente estaria disponível para sacrificá-lo.

A Revolução não é nossa para sacrificar, porque não fomos nós que nos sacrificámos para torná-la possível. Nós só ficámos com a parte boa. O 25 de Abril não é nosso para sacrificar, porque a Democracia e a Constituição, os direitos, as liberdades e as garantias, os serviços públicos e o Estado Social não se sacrificam; são eles justamente a fina linha que nos separa do vazio nos tempos em que vivemos. Tenho a certeza de que hoje é mais importante do que nunca celebrar Abril. E é ainda mais importante por tudo o que vimos nas últimas semanas. Quando o terror se sente no ar, instigado pelos mesmos de sempre, o povo aflige-se, fraqueja e esconde-se no escuro. Passa a temer a sua própria sombra e a desconfiar de tudo, inclusive do que dá por adquirido, inclusive da bondade da candeia que alumia o caminho. É por isso que toda a luz é essencial. É por isso que temos hoje a missão, como muitos outros melhores do que nós e muito antes de nós, de não arredar pé e arrepiar o caminho. Quantos portugueses foram aconselhados até hoje a não serem livres, na sua vida, no seu trabalho, na sua sorte, na sua terra e no seu destino? Se é para sacrificar alguma coisa, que seja por eles. Os outros não passarão.

Hoje, como em todos os dias dos últimos 46 anos, não nos cabe apenas celebrar. Cabe-nos defender um país que acredita numa vida digna para todos, venham de onde vierem, estejam onde estiverem. Um país de cada qual, segundo a sua capacidade, a cada qual, segundo as suas necessidades. Um país que, com todos os seus defeitos e insuficiências, é um exemplo de progresso e humanismo em toda a parte. Um país em que ninguém fica para trás, com saúde e educação universais, com protecção social e laboral, o que para nós são só mais uns direitos, mas em meio mundo são só mais uns sonhos. 46 anos depois, nem tudo está cumprido, mas que nunca nos falte o sentido, a gratidão e a memória para celebrar um país com liberdade e com esperança. Celebrar Abril é urgente, hoje e sempre, para que o presente nunca nos fuja por entre os dedos. Muitos outros antes de nós, e muito melhores do que nós, gostariam que essa tivesse sido a sua resistência e a sua única responsabilidade.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O golo de uma vida


A atitude do Marega ontem prova, no fundo, o quão fundamental é ir até às últimas consequências pelo que achamos que está certo, mesmo, ou sobretudo, se acharmos sozinhos.

Se ontem o primeiro jogador de sempre em Portugal não tivesse saído de campo a meio de um jogo de alta competição, porque num país civilizado não pode ser tolerável que te apupem como um macaco na rua, hoje não estávamos todos a falar de racismo, não estávamos todos envergonhados porque temos de falar de racismo, e se calhar amanhã, qualquer animal se voltaria a sentir absolutamente impune para apupar outra pessoa na rua como se ela fosse um macaco.

O Marega saiu ontem sozinho de campo, porque evidentemente ficou sozinho em campo, porque quando o macaco não somos nós, o melhor é não fazer caso disso, não exagerar e fingir que não importa assim tanto, que faz parte da selvajaria e que não é "racismo" a sério, é "futebol". Quando o macaco não somos nós, é sempre melhor não arranjar confusão, nem partir os telhados de vidro aos bocadinhos, porque fica melhor não se dar ao respeito e não ser respeitado.

O Marega saiu ontem sozinho de campo, como estaria hoje sozinho na opinião pública, nas televisões, nos jornais e nas redes sociais, caso tivesse fingido que aquilo alguma vez não é tão mau como parece e continuado em campo. Hoje, acabaria por certo no rodapé de um jornal, como um futebolista mimado, problemático e que fez uma cena que não é para levar a sério, o mesmo rodapé da vida real em que todos os dias muitos outros Maregas não são levados a sério, enquanto sofrem a indignidade na pele e em silêncio, pisados como macacos sem milhares de pessoas a ver.

Ao partir a loiça toda, o Marega chocou e assustou o país das aparências e dos brandos costumes, e fez-nos um favor maior do que poderemos admitir, mas que espero que subsista em carne viva na nossa consciência colectiva, e se da próxima vez ajudar um miúdo que seja a não ter vergonha de quem é, e se da próxima vez ajudar um grunho que seja a ter vergonha de quem é, o Marega já fez mais pelo país do que o país lhe poderá agradecer.

Numa época arriscada, em que não temos a sorte de poder apupar fachos em estádios de futebol, que o Marega sirva, pelo menos, para nunca mais relativizarmos o mal que estes comportamentos fazem e já fizeram ao país, e o que alguma escumalha quer voltar a fazer. Que o Marega sirva para traçar a linha que nos define o carácter enquanto homens, porque não há nada mais perigoso do que normalizar a intolerância. E que das próximas vezes, perante o racismo e a xenofobia, perante a caça à igualdade, ao humanismo e às liberdades individuais, não tenhamos vergonha de escolher um lado, mesmo se tivermos de sair de campo e pôr tudo em causa, mesmo sozinhos, mesmo até às últimas consequências.