domingo, 15 de março de 2026

Óscares 2026 - Previsões


FILME
Vai vencer: One Battle After Another
Pode vencer: Sinners
Devia vencer: One Battle After Another

Este é o ano de Paul Thomas Anderson, e Filme e Realizador só se perdem se acontecer uma hecatombe. Percebe-se o apelo de Sinners até como fenómeno cultural, mas One Battle é muito superior em tudo, e um testamento político e revolucionário igual ou maior, criado, do argumento ao fulgor e à fotografia, com a batuta de um génio. Estão em mundos de qualidade diferentes.


REALIZADOR
Vai vencer: Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Pode vencer: Ryan Coogler (Sinners)
Devia vencer: Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)


ACTOR
Vai vencer: Michael B. Jordan (Sinners)
Pode vencer: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Devia vencer: Ethan Hawke (Blue Moon)

Uma das categorias mais interessantes e abertas do ano, depois de Chalamet ter deitado uma campanha promocional monstruosa a perder. As interpretações não são o principal trunfo de Sinners, e Michael B. Jordan não foi melhor do que Chalamet, mas nenhum deles merecia o Óscar. Já Ethan Hawke assina uma performance que podia ser uma aula na Escola de Artes e vulgariza os jovens da concorrência. É relativamente inexplicável que não tenha hipóteses de ganhar. O próprio DiCaprio está num nível bem acima dos favoritos. Só mais uma perversão da Oscar season.


ACTRIZ
Vai vencer: Jessie Buckley (Hamnet)
Pode vencer: -
Devia vencer: Renate Reinsve (Sentimental Value)

Todos os anos há uma categoria fechada, e neste é a de Melhor Actriz. Jessie Buckley tem muito talento, faz um muito bom trabalho e o prémio ficará em boas mãos, mas não estaria no meu top2. Renate Reinsve anda a provar que é um fenómeno desde Worst Person in the World, volta a fazer um filme bastante melhor e tem uma grandeza natural e inatacável. Foi a performance superlativa do ano. Há que lembrar ainda o poderio de Emma Stone. 



ACTOR SECUNDÁRIO
Vai vencer: Sean Penn (One Battle After Another)
Pode vencer: Stellan Skarsgard (Sentimental Value)
Devia vencer: Sean Penn (One Battle After Another)

Se calhar a minha categoria favorita, repleta de malta de culto. O gigante Sean Penn ganhará com toda a probabilidade o seu 3° Óscar, e há pouco a dizer em relação a semelhante potência. Mas é bonito ter um vulto como Skarsgard na corrida (há aqui um bocadinho de Andor), sem esquecer a delícia de nomeação de Del Toro.



ACTRIZ SECUNDÁRIA
Vai vencer: Amy Madigan (Weapons)
Pode vencer: Teyana Taylor (One Battle After Another)
Devia vencer: Teyana Taylor (One Battle After Another)

Não vi Weapons, portanto desconheço os méritos da favorita Amy Madigan, que ganhou o sindicato de actores e o Critics Choice. Teyana Taylor parecia-me a vencedora natural desde a 1a hora, depois da revelação explosiva no filme do ano e do Globo de Ouro. A ver se ainda vai a tempo. 



ARGUMENTO ORIGINAL
Vai vencer: Sinners
Pode vencer: Sentimental Value
Devia vencer: Blue Moon

Repito que tenho consideração por Sinners, mas numa categoria como argumento, ir contra Sentimental Value e Blue Moon e ganhar, é ridículo. Há nuances boas, mas é um filme muito mais de acção, e é justamente pelo argumento que acaba por ceder. Blue Moon é um texto de inspiração pura, com um carisma que não tem comparação. Sentimental Value também é feito de outra substância. A decisão mediática é muito pouco compreensível. 



ARGUMENTO ADAPTADO
Vai vencer: One Battle After Another
Pode vencer: Hamnet
Devia vencer: One Battle After Another

Será, e justificadamente, um dos 4 grandes Óscares do favorito da noite. PTA não se limitou a ser espectacular na realização, e preparou um argumento de criatividade caótica e fulgurante, que rendeu a peça mais completa do ano. Vale a pena, ainda assim, enaltecer o tesouro que é Train Dreams, um texto que é um deslumbre e um bálsamo.



FILME ESTRANGEIRO
Vai/Devia vencer: Sentimental Value

CINEMATOGRAFIA
Vai/Devia vencer: One Battle After Another

BANDA SONORA
Vai/Devia vencer: Sinners

ELENCO
Vai vencer: Sinners
Devia vencer: One Battle After Another

No apanhado final, é possível que Filme Estrangeiro seja a única vitória de Sentimental Value, mas será de valor (muito superior a Secret Agent); se há um Óscar que Sinners merece ganhar, é pela sua fenomenal banda sonora; e para implicância final no grande duelo da noite na estreia do Óscar para Elenco, vencerá Sinners, tal como já ganhou no sindicato, mas a diferença de nível, também aí, para One Battle é gritante. Era preciso muito mais reconhecimento do que o Óscar de Sean Penn. É a ensemble do ano.

sábado, 10 de junho de 2023

O que interessa

Vi dezenas de milhares de minutos de Marítimo nos Barreiros ao longo dos últimos 25 anos. Ganhámos às vezes, perdemos muitas. Gosto de dizer que fui muito feliz com pequenas vitórias e que o resto foi carácter, e quem lá cresceu sabe o que isso é. Um maritimista aprende cedo o que são semanas ganhas e estragadas por causa de 90 minutos de futebol. Esquecer é um dom de outros, quem dera ir à bola e esquecer. O Marítimo é outra coisa. Um maritimista não se esquece, porque o Marítimo sai-nos de dentro. O maritimismo é uma forma de estar, de acreditar e de ser representado. É o passado, o presente e o futuro de gente orgulhosa do seu lugar, das suas superações e dos seus sonhos. É saber o que somos, aonde pertencemos e o longe que podemos chegar juntos. Imaginem a sorte que isso é. Quando joga o Marítimo, jogo eu, o meu pai, os meus amigos, a minha família, a minha rua, a minha cidade, a minha ilha, imaginem o que era ir a jogo e esquecer a seguir? Imaginem ir a jogo por eles, como se isso não representasse tudo, sempre? Há muitos clubes que são só clubes. O Marítimo é uma ideia. É a gente e o lugar que a tornou possível, contra a extraordinária maior parte das probabilidades, em 700km2 de terra a flutuar num oceano inteiro. Onde quer que esteja um madeirense, se estiver o sonho, também está o Marítimo. 

Já nasci sócio desta ideia, tratar disso no próprio dia foi só uma formalidade, porque código genético não é coisa que se assine numa folha. E tenho bilhete de época desde o meu 9° aniversário, como se tem uma casa. Sinto que já vivi muitas vidas nos Barreiros, porque o Marítimo é como a pele, vai connosco, faz parte de nós. Vivi ali vidas minhas, do clube, da nossa gente, da Madeira e da nossa História. Já vivi muitas vidas nos Barreiros, mas nunca pensei viver uma assim. A última década preparou-nos para isso, é verdade, mas nada nos prepara para um jogo como o de amanhã. Nada nos pode nunca preparar para a possibilidade de o Marítimo poder não ser "clube de 1a Divisão", como foi desde o dia em que nasci. Já vivi muitas vidas nos Barreiros e, quis o destino, amanhã não vou conseguir lá estar. O destino prega-nos sempre umas partidas e, desta vez, vai-me desencontrar de um jogo onde eu nunca quereria ter estado. Isso lá terá a sua ironia poética. Nestes 25 anos, houve muita coisa que nos foi arrancada das entranhas, mas nunca jogámos assim pela vida, e não faço ideia se é mais suportável sofrer de perto ou sofrer de longe. Sei que amanhã queria, afinal, lá estar e não vou poder. Passei uns dias absorto nessa ideia, até ao meu pai ter-me dito "isto não é sobre nós. Não interessa se vamos ou não vamos estar lá, não interessa quem vai estar lá. O que interessa é o Marítimo ganhar." 

Não é sobre nós, de facto. O que interessa é o Marítimo ganhar. Amanhã, nos Barreiros, vão estar 11 em campo e 11 mil nas bancadas, mas fora dos Barreiros serão incontáveis os milhares de onzes que vão estar em casa, nos bares, nas ruas, no Funchal e pelos caminhos da estrada regional, do Tourigalo ou do Barreirense até ao outro lado do mundo, a torcer para que corra bem. E saber a quantidade de pessoas que vai ficar feliz se correr, enche-me a alma. Essa esperança incondicional no Club Sport Marítimo, num ano em que fizemos tudo mal, num ano em que merecemos estar onde estamos, num ano em que o mais lógico seria cair, a pureza dessa esperança é a razão de ser da nossa enormidade, que terá amanhã a acreditar em si desde um miúdo funchalense de gema até um empresário na África do Sul, desde um agricultor nos Canhas até uma avó na Venezuela, desde um pescador em Câmara de Lobos até uma médica no Reino Unido, desde um gerente na costa norte, até um investigador na Austrália. Podemos ter falhado tudo este ano, mas nunca vamos falhar a esperança de que, no fim, ainda vai correr bem. De que no fim, ainda vai dar Marítimo. Em 25 anos de Barreiros, mesmo nos piores dias, mesmo quando estivemos mais desiludidos, tristes e frustrados, mesmo quando queríamos nem acreditar, sempre foi mais forte do que nós. O Marítimo é e sempre foi mais forte do que nós.

Se calhar não merecemos ficar, fizemos tudo para não ficar e, ainda assim, amanhã a esperança será uma vez mais tão grande como nos dias maiores. Amanhã, onde quer que estejam, acreditem. O que interessa é o Marítimo ganhar.

domingo, 21 de agosto de 2022

A realidade


O Marítimo foi 10° classificado da última edição da Liga. No Verão, perdeu três titulares, incluindo o seu melhor jogador, num onze onde as debilidades já eram bastante evidentes. Os reforços não só chegaram tarde (metade depois do estágio já ter acabado), como nenhum veio titular de caras, o que se veio a confirmar. Em boa consciência, as expectativas só podiam, por isso, ser absolutamente modestas para arrancar a época: já antes disto ter começado, há três semanas, que o único objectivo realista do Marítimo era lutar pela manutenção. O 10° classificado do ano passado começou a época mais fraco, pelo que a lógica era vir para baixo disso. 

A realidade do Marítimo é esta e estava à vista para quem quisesse ver. A partir deste ponto prévio, há duas observações que me parecem essenciais neste momento. A primeira é a questão da gestão de expectativas por parte do clube/SAD. Não vou discutir aqui se era possível ter trazido jogadores melhores e mais cedo, porque assumo que não. Agora, a partir do momento em que o clube não tem capacidade para investir no reforço objectivo de um plantel que ficou em 10°, e que perdeu três titulares, a partir do momento em que começamos pior do que já estávamos, tem de haver a frontalidade de dar a cara, assumir as dificuldades com todas as letras e números, e ter a sensibilidade de pôr todos os adeptos no mesmo barco. Na pré-época, a única coisa que ouvi foi o Presidente dizer que o Marítimo não pode ficar para baixo de 7°. Ambição é boa e recomenda-se, mas ambição distante da realidade estraga mais do que galvaniza.

A um departamento de futebol, não calha sempre o engenho de contratar bem, e para o imediato, sem ter dinheiro. Contratámos um suplente do Guimarães, um suplente do Gil (que passou o ano lesionado), um miúdo da nossa 2a Liga, dois miúdos suplentes na 2a Divisão Espanhola, outro miúdo da 3a Divisão espanhola e um da 2a Divisão mexicana. Com certeza não foram as primeiras, nem as segundas opções, pelo que resta dar o benefício da dúvida e esperar. O que não faz sentido dizer é que os reforços seriam cirúrgicos, e que se demoravam, era porque só viria gente para fazer a diferença. Acho que faltou, e porventura continua a faltar, tratar os adeptos como adultos. Acho que todos os maritimistas percebem se lhes disserem que não temos dinheiro para mais e que vai ser um ano de dificuldades. Fingir outra coisa qualquer é natural que acabe em histeria. 

A 2a questão é a técnica. O treinador está sempre condenado a trabalhar com o que lhe dão. Neste sentido, até há três semanas, o Vasco Seabra seria dos menos culpados pelo desenrolar dos acontecimentos. Tinha um onze deficitário no ano passado, ficou com uma equipa ainda mais fraca no Verão, teve de fazer uma pré-época quase sem reforços e não chegou ninguém que disfarçasse a situação. O cenário estava longe de ser animador, mas até para um cenário pouco animador, o início de época foi desastroso. Sinceramente, não lhe critico a opção de ter começado com os jogadores que já conhece e que fizeram a pré-época, acho que é uma questão de coerência e de balneário. Por outro lado, a pavorosa falta de agressividade, mínimos de concentração e organização colectiva, isso é impossível não criticar. 

Um treinador está condenado a trabalhar com o que lhe dão, mas também tem de mostrar trabalho com o que lhe dão. A sensação que esta equipa dá é que o treinador queria que ela fosse outra coisa qualquer, que manifestamente não tem capacidade para ser. A equipa de Vasco Seabra é uma equipa lírica, como ele próprio muitas vezes tende a ser, que quer sair a jogar desde trás, mesmo se for contra o Porto no Dragão, que joga sem carregadores de piano no miolo e não faz faltas, que desiste do jogo quando começa a perder de 2 ou 3 para cima, que só joga se for bonito e se não sujar os calções, e essa é a linha para lá da qual qualquer maritimista adoece. Porque há muitas formas de perder. Levar 7 na Luz, ou 5 no Dragão e em Braga, ou perder metade dos jogos nos Barreiros, não é a minha forma de perder. Dou ao Vasco o mérito por nos ter salvo no ano passado. Mas desde Março que o futebol e os resultados do Marítimo são, no mínimo, sofríveis, e às vezes vergonhosos.

O treinador queria que esta equipa fosse outra coisa qualquer, o Presidente com certeza também, a SAD também, e os adeptos também. Mas esta equipa é o que é, e vai ter de ser com ela, e sem milagres, que se vai lutar novamente para não descer. Cada dia que passe sem que toda a gente aceite isso, e seja mais competente a fazer a sua parte em função disso, é um dia perdido, e o Marítimo não se pode dar ao luxo de continuar a perder muitos mais. Num momento em que as hostes estão compreensivelmente desiludidas, não poderia deixar, no entanto e por fim, de sublinhar o óbvio: ninguém no seu perfeito juízo pode estar a desejar um regresso ao passado bafiento, onde havia problemas iguais, e depois outros muito piores. O caminho do Marítimo é em frente, sempre, e se é para sofrer, que seja com todos presentes ao leme, e nunca mais pelo leme do homem só.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

A viagem moral de um povo


[Texto escrito há 4 anos, sem saber o que nos esperava. Texto recuperado hoje, um fim do mundo depois, dia em que a Viagem recomeça]

Mais do que uma estação, o Verão é um estado de espírito. Na Madeira, é ainda mais do que isso: é uma experiência psicotrópica, na medida em que é um estado de espírito que veio aos trópicos. E os trópicos são um bom investimento.

Acredito que se pode ser feliz em muitos sítios onde esteja o mar, mas querer ser feliz fora da Madeira em Agosto é abusar da sorte. Porque a ilha pode não ter petróleo, mas em Agosto carbura. Pode não ter diamantes, mas em Agosto, até o calhau que reluz é ouro. Não somos uma Riviera, mas em Agosto tudo é uma praia, porque temos fajãs de coragem para dar e vender. E se nos faltar o champagne ou os iates, garanto que, em Agosto, temos sangria, suor e lágrimas de rir, para navegar. Mas sobretudo, temos os arraiais.

A Madeira não é um paraíso deserto como nos filmes, é um paraíso cheio de arraiais, e onde estão os arraiais, estão as histórias, e os santuários de romeiros que recebem como ninguém, porque esta terra tem o dom de oferecer como ninguém, e de nos oferecer uns aos outros. É isso que distingue os nossos arraiais de qualquer outro festival de Verão, ou festa de aldeia ou baile de paróquia. Não é o tamanho físico, é o tamanho moral. O grau de compromisso, de generosidade e de familiaridade, o genuíno despudor de quem acredita que, na ilha, nascemos todos da mesma rocha, e somos todos filhos da mesma festa e do mesmo mar, o desapego de quem pratica que, nas praias da costa sul ou nos penhascos da costa norte, no álcool como na vida, quanto mais graus, quanto melhor.

Os arraiais são a nossa forma de partilhar com os outros o mais que nos damos a nós próprios. Com mais vertigem, mais vontade, mais quilómetros, mais entusiasmo, mais litros, mais noite, mais conversa, mais encontros e mais reencontros, mais memórias e mais novas memórias, num turbilhão de energia em estado puro, em que se vive um ano num mês, como se ele durasse uma vida.

Os arraiais são um fenómeno natural, feito de uma superação sempre surpreendente, seja na logística de quem se faz semanalmente ao caminho sem nunca olhar para trás, seja nas histórias impensáveis, mesmo as que nunca vamos inteiramente recordar, mas sempre ao lado dos que nunca vamos inteiramente esquecer, seja, por fim, na lenda dos desconhecidos, que temos depois a honra e o privilégio de imortalizar até ao fim dos tempos. Na grandeza despojada dos que se criaram nesta terra, podemos todos ver o cordão umbilical com que ela nos liga uns aos outros, e que temos o dever e a responsabilidade de renovar todos os anos, do Porto Moniz aos Lameiros, do Seixal a São Vicente, à procura do maior sonho que pode existir numa noite de Verão, que é reencontrarmos a ilha mística, mas também a nós próprios e uns aos outros.

O Verão na ilha é uma regeneração imersa em eterna juventude, uma terapia, mas em mais rápido, uma mente sã, mas em corpo de expiação. E está bem assim. Porque se o Verão eventualmente acaba, há outra viagem que começa. E se há rotina que nos leve, precisamos que haja sempre arraial que nos encontre. Vemo-nos lá.

domingo, 17 de outubro de 2021

Tá na Hora


A minha geração não se apaixonou pelo Marítimo. A minha geração apaixonou-se por uma ideia do que tinha sido, e do que podia ser, o Club Sport Marítimo. Em retrospectiva, 22 anos depois da primeira vez em que entrei nos Barreiros, é cruel a realização de que quase tudo o que sonhamos, foi um sonho adiado. Os que vieram antes de nós, viveram muitas coisas: nos anos 20, fomos Campeões de Portugal; nos anos 50, fizemos as grandes campanhas além-mar; nos anos 70, chegámos à 1ª Divisão; nos anos 90, chegámos à Europa. Os que vieram antes de nós, viveram muitas coisas; a nós, tocou-nos sobreviver a coisas demais, e não me parece que em circunstâncias piores do que as dos fundadores, ou de todos aqueles que dobraram os nossos marcos históricos.

Na próxima sexta-feira, dia 22 de outubro, os sócios do Marítimo serão chamados a escolher, pela primeira vez num quarto de século, entre duas visões distintas para o futuro do clube. Todos terão as suas razões e motivações para votar, e é fundamental que o façam. Não me parece, contudo, que nenhum tenha como ignorar que o atual projecto desportivo do clube está completamente esgotado. Isso pode não ser suficiente para votar na mudança, mas essa será, em todos os casos, uma escolha perfeitamente consciente, e de acordo com a forma como cada maritimista olha para o seu clube e projecta o futuro do seu clube.

Quem aprecia o Marítimo de serviços mínimos, completamente esvaziado de ambição, mística e identidade, não só divorciado dos adeptos, como confortável com essa distância, não só gerido como uma empresa sem alma, mas propositadamente gerido para decapitar terceiros e sanear expectativas, está no seu direito. Aos outros, aos que se apaixonaram pela ideia de um clube feito de carne, osso e esperança, para o qual não havia apenas limitações, mas infinitas possibilidades, compete-nos, uma vez mais, estar à altura da nossa História, e ser o que o Marítimo foi a vida toda: não o que nos dizem que podemos ser, mas a transcendência daquelas que sempre foram as nossas circunstâncias.

Uma das primeiras imagens que tenho do Rui Fontes, em cassete, é vê-lo em comoção nos Barreiros, na primeira vez que nos qualificámos para a Taça UEFA. Que loucura, que euforia pura, que feito extraordinário. Que alegria. Já não somos esse Marítimo, mas tenho a certeza de que muitos, como eu, gostavam de ser. Eu gostava de começar uma época, ou duas ou três seguidas, sem que ninguém me dissesse o que é que não seremos capazes de fazer. Eu gostava de ir a jogo, em casa e fora, sem estar preparado para perder ou empatar, e gostava de perceber, por uma vez, quais os valores da minha equipa em campo ou o que raio queremos ser. Isto é tão básico e, de perfil aleatório em perfil aleatório, dos treinadores aos jogadores, não sabemos há tanto tempo. Eu gostava de olhar para a tribuna, e ver um Presidente que acredita como nós, que festeja como nós e que se afecta como nós. 

Alguns poderão dizer que isso não vale nada, que gestão não se compadece com militância e emoção, que é preciso ter os pés enterrados na terra, património e garantias bancárias. Eu, pessoalmente, nunca vi património e garantias bancárias a encher estádios de gente e a ganhar jogos de futebol. Se o Marítimo tivesse sido, ao longo da sua História, uma construtora civil ou um banco, nunca teria sido o Marítimo. Sem gente, sem a paixão e a ilusão das pessoas, não temos, nem nunca teríamos tido razão de ser.

O Marítimo precisa de propósito, precisa de objectivos, precisa de uma filosofia consentânea com a nossa História e a nossa identidade, precisa de voltar a querer ser alguma coisa para além de uma SAD tecnocrata, que serve de entreposto a uma mercadoria chamada jogadores. Um clube de futebol não é uma sociedade anónima desportiva, um clube de futebol é uma comunhão dos sonhos, das vontades e das ambições de pessoas reais, e se não for isso, não é coisa nenhuma.

Ninguém quer ser mediano e sofrível a vida toda. O Marítimo tem de voltar a ser Domingo no Caldeirão com um sorriso na cara, a entrar e sair orgulhoso, porque ganhamos e perdemos com as nossas ideias. O Marítimo é sofrer, mas precisa de voltar a sofrer com propósito, acreditando que, por mais conscientes que estejamos das nossas limitações individuais, regionais e institucionais, juntos não há superação que não seja possível. Sozinhos não somos grandes, mas juntos, o Marítimo pode ser.

Aconteça o que acontecer na próxima sexta-feira, o futuro do Marítimo depende de mudar muita coisa. O clube precisa de uma estrutura desportiva que não seja um devaneio de poder unipessoal, precisa de muito mais competência, critério e profissionalização, precisa de gente que goste de futebol e que perceba de futebol, gente que goste do Marítimo, mas que, acima de tudo, perceba o que é o Marítimo. Podemos ter todos a certeza de uma coisa: não é possível ter resultados diferentes, se continuarmos a fazer tudo igual. E que não nos equivoquemos: a atual Direção até poderá voltar a ganhar, mas a mudança é irreversível. Neste momento, enquanto prosseguimos a via sacra do 4º ano seguido de humilhações a jogar para não descer, a única coisa que ainda podemos decidir, é como, e em que divisão, queremos que essa mudança aconteça.

As eleições da próxima sexta-feira vão confrontar duas propostas muito diferentes, mas vão sobretudo representar uma decisão histórica entre aquilo que nos conformamos a ser, e aquilo que já fomos e que podemos voltar a ser. Claro que não é fácil e que nada mudará sem dificuldades, como num passe de mágica; mas o problema do Marítimo é que deixámos de ser muitos a sonhar aos poucos, para ser cada vez menos a morrer aos poucos.

Quando surgiu a primeira notícia de que o Rui Fontes poderia regressar, enviei-a por whatsapp ao meu pai de madrugada. Quando acordei na manhã seguinte, a resposta era: "este é maritimista". É um reconhecimento tão simples, como sagrado para o meu pai, que ele reserva de forma quase marcial para aqueles que lhe merecem o mais alto respeito. Não me disse se o Rui era um bom gestor, ou um bom empresário, não me falou do dinheiro do Rui ou dos contactos do Rui, não me disse se o Rui é que recruta os jogadores, ou se dá a táctica ao treinador. Disse-me que o Rui é maritimista, e isso basta-me. Na próxima sexta-feira, votarei pela primeira vez na minha vida numas eleições do Club Sport Marítimo e depositarei os meus 20 votos no Rui Fontes, consciente de que ele já cometeu erros, e que voltará a cometê-los, mas com a certeza de que nunca precisamos tanto de ser maritimistas em primeiro lugar, como agora. 

domingo, 25 de abril de 2021

Óscares 2021 - Preview


Top 10 do Ano

1. Nomadland

2. Sound of Metal

3. Tenet

4. Promising Young Woman

5. Da 5 Bloods

6. Another Round

7. Pieces of a Woman

8. Mank

9. News of the World

10. One Night in Miami


Os melhores

FILME: Nomadland

REALIZADOR: Chloé Zhao (Nomadland)

ACTOR: Riz Ahmed (The Sound of Metal)

ACTRIZ: Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)

SECUNDÁRIO: Paul Raci (The Sound of Metal)

SECUNDÁRIA: Glenn Close (Hillbilly Elegy)

ARGUMENTO ORIGINAL: Promising Young Woman

ARGUMENTO ADAPTADO: Nomadland


As apostas

FILME: Nomadland

REALIZADOR: Chloé Zhao (Nomadland)

ACTOR: Chadwick Boseman (Ma Rainey's Black Bottom)

ACTRIZ: Viola Davis (Ma Rainey’s Black Bottom)

SECUNDÁRIO: Daniel Kaluuya (Judas and the Black Messiah)

SECUNDÁRIA: Youn Yuh-jung (Minari)

ARGUMENTO ORIGINAL: Promising Young Woman

ARGUMENTO ADAPTADO: Nomadland

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O Marítimo que esta geração nunca foi


Nunca vi o Marítimo descer. Espero sinceramente que não seja preciso descer de divisão para que se mude o que é preciso mudar.

Escrevi há três meses que, pela terceira época consecutiva, íamos jogar para não descer e, pela terceira época consecutiva, não vamos apenas vaguear no ocaso humilhante da segunda metade da tabela; vamos literalmente jogar pela vida enquanto ela sobrar, com o estádio vazio, sem rumo e com o peso da inevitabilidade às costas, maior a cada ano que passa. O povo diz que tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia já não volta, e esta vertigem de morte que se apoderou do clube começa a ser demasiado abissal para nos tentarmos convencer do contrário. No fundo, é apenas lógica: não nos podemos colocar sempre numa situação-limite, e achar que vai sempre haver um milagre; não podemos fazer sempre a mesma coisa, e esperar resultados diferentes. Nos últimos 20 anos, desceram de divisão o Guimarães, o Boavista, o Setúbal, a Académica, o Belenenses e o Nacional, e na verdade, é óbvio que já nos podia ter acontecido nas últimas duas épocas, que pode acontecer este ano, e que acontecerá inevitavelmente em breve, se continuarmos assim.

Às vezes, gostava simplesmente de acreditar que o problema é a bola que vai ao VAR e entra, e a bola que vai ao VAR e sai. Que o futebol é só o universo a jogar aos dados, que uns dias se ganha e uns dias se perde, que o jogo é sorte e azar, e que no fim vai correr tudo bem. É que pelo Marítimo, já sofri a vida toda. Costumo dizer que ser adepto do Marítimo nos prepara para quase tudo, porque, tal como na vida, há menos finais felizes do que dos outros. Ser do Marítimo dá-nos estofo para lidar com o desterro das maiores derrotas, e dá-nos carácter para ficar felizes com a beleza das pequenas vitórias, e aprendemos todos a viver com isso, mesmo com as prioridades que se sacrificam pelo caminho, seja tempo com quem gostamos, seja qualidade de vida a fazer algo mais saudável. Seja como for, ser do Marítimo é o maior orgulho da minha vida. Vou ser do Marítimo até morrer, aconteça o que acontecer, e até ao fim do mundo, onde quer que estejamos. Portanto, o problema não é sofrer; é a absoluta falta de razões para continuar a sofrer assim.

Este ano, é mais real do que nunca a possibilidade do Marítimo descer, e perturba-me que tenha sido preciso chegar a isto, quando os sinais foram tantos e tão evidentes. E perturba-me ainda mais que, se calhar, nem esta situação seja suficiente para que toda a gente perceba a necessidade de mudar. Este ano, é mais real do que nunca a possibilidade do Marítimo descer, e não é porque estes jogadores surpreendentemente estão em sub-rendimento ou não correm em campo; não é porque este treinador, ou o anterior, surpreendentemente não conseguiram dar conta do recado; na verdade, não há nada de surpreendente, ou sequer de misterioso, sobre o estado atual do Marítimo. Surpreendente é não ter acontecido nada ainda mais grave, ainda mais cedo.

O atual projecto desportivo do Marítimo falhou, porque já não há projecto nenhum há muito tempo. Quando o atual Presidente entrou em funções, era preciso salvar as contas do clube. Depois, a prioridade foram as infraestruturas. Na verdade, e não querendo ser ingrato, o futebol foi sempre um projecto desportivo adiado no Marítimo. Normalmente, a sobrevivência não é um assunto linear, pelo que me parece que todo o maritimismo aceitou que tínhamos de saber esperar. Não sei, na verdade, se haverá outra base associativa tão significativa como a nossa, e tão extraordinariamente paciente. No último quarto de século, tivemos consolidação financeira, consolidação estrutural e alguns bons resultados, mas sobrevivemos sobretudo à conta de migalhas desportivas, enquanto vimos, por exemplo, o Braga tornar-se no quarto grande, o Guimarães ganhar uma taça, o Paços de Ferreira chegar à Liga dos Campeões e o Nacional fazer dois quartos lugares.

A tudo subsistimos, firmemente agarrados à convicção de que a vida é difícil, e de que talvez um dia chegasse a nossa vez, mesmo que as prioridades dissessem sempre o contrário, ao vender urgentemente os melhores jogadores, contratar futebolistas às centenas e sem critério, na esperança de lucrar com a economia de escala, como noutra empresa qualquer, e rodar perfis de treinadores de forma completamente aleatória, como se alta competição fosse a roleta russa. O problema do Marítimo não é evidentemente a bola que bate no poste e sai, nem o facto de 99% dos profissionais que cá chegam não cumprirem as "expectativas", porque se calhar temos azar; o problema do Marítimo é que quem tem a responsabilidade de decidir, há muito descarnou o clube, porque é mais fácil e mais rentável gerir uma empresa de retalho, onde só interessa cumprir os mínimos, não dar prejuízo e sobreviver. O problema do Marítimo é que estamos fartos de sobreviver, porque sobreviver não é vida para ninguém.

A este Marítimo falta quase tudo. Falta visão, ambição, projecto e identidade. Falta brio, coerência, humildade e a mais elementar noção para reconhecer que aquilo que temos vivido, não é nada num clube de futebol, e que é preciso mudar e saber porquê. Como se isso não bastasse, falta até o discernimento para saber dar o valor ao mérito, quando ele é mais evidente. De vez em quando acontecem-nos fenómenos como o Daniel Ramos, um homem sozinho que fingiu que era um projecto desportivo, e que inventou dois anos de esperança. Fizemos 97 pontos nessas duas épocas, as últimas duas em que lutámos pela Europa. Chegámos lá uma vez, e ficámos mais de um ano sem perder em casa. O Presidente despediu-o, porque não podia ser o treinador a mandar no futebol do Marítimo. Desde a saída do Daniel, tivemos 6 treinadores e, em duas épocas e meia, 6 treinadores conseguiram fazer menos pontos juntos do que ele sozinho. É este o cúmulo em que vive o Marítimo há muito tempo.

Ao fim de 35 anos, o abismo da descida está iminente, e este é o derradeiro momento para lembrar que nunca ninguém esteve, nem nunca ninguém estará acima do Club Sport Marítimo. Há, por isso, duas coisas que para mim são fundamentais neste momento. A primeira é reconhecer que a equipa precisa de todos nós mais do que nunca, porque esta será uma luta brutalmente dura até final da época, com tudo em jogo. Espero que ninguém se afaste do Marítimo nesta altura porque não se revê na liderança, porque isto não é sobre nós, é sobre algo maior do que nós. Hoje e sempre, mas especialmente até ao final da época, não podemos desistir do Marítimo, e o clube só passará por isto se ninguém ficar indiferente.

Finda esta época, e aconteça o que acontecer, a atual Direção não tem condições para continuar. O que espero de quem está no poder há 25 anos, perante este momento determinante, não é negação, absolutismo e amargura, não é dizer que quem assina manda, nem chamar a polícia para intimidar adeptos, muito menos intitular-se donos da História e alimentar a narrativa de que não existem alternativas.  Neste momento, o que não existe no Marítimo é futuro. Se quem está no poder ainda quer honrar o que de bom ficou para trás, só lhe resta não ser um obstáculo, mas uma solução, pelo bem do clube.

O Club Sport Marítimo é demasiado grande para não ter alternativas. Esta era do Marítimo acabou e será a História a julgá-la. Agora é preciso dar lugar a outros, é preciso fazer uma transição responsável, e fazer a ponte entre o passado e o futuro. Acredito que o destino do Marítimo depende de todos, inclusive dos que ainda lá estão a mandar, e que a atual Direção deve ter um papel importante a desempenhar, dignificando o próximo capítulo na vida do clube. Tem é de perceber imediatamente, com seriedade e compostura, que uma coisa é chegar ao fim da linha, e outra é levar o clube consigo.

Quando a História julgar este quarto de século, começará pelo fim. Quem ainda não o percebeu, vai percebê-lo mais cedo ou mais tarde. Os jogadores, os treinadores, os presidentes e até os adeptos passam, mas o Marítimo fica. Só o Marítimo é que nunca acaba. Não sei se teremos de começar do zero, mas eu ainda gostava de ser o Marítimo das grandes campanhas, o Marítimo da alegria, da pureza e da mobilização popular única, o Marítimo da altivez, da ambição e dos sonhos da nossa gente, o Maior das Ilhas, a bandeira da Madeira atlântica e ultraperiférica pelo país e pelo mundo, o Marítimo temido, o Marítimo do dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio, como o fizemos tantas vezes ao longo destes 111 anos.

Eu ainda gostava de ser o Marítimo que o meu pai viu por entre a multidão no tartan dos Barreiros e para o qual não havia limites, só infinitas possibilidades. O Marítimo que se fez grande na Liga, ou o primeiro Marítimo que foi à Europa e ao Jamor. Está na hora de sermos o Marítimo que esta geração nunca foi. Está na hora.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

La vida es una tómbola

Não sei se Deus existe. Sei que se existisse, havia de ser como ele. Custa bastante escrever isto hoje, porque custou bastante a acreditar. Se Deus existisse, não havia de morrer. Custa bastante escrevê-lo já, porque parte de mim ainda acredita que ele pode voltar, que há sempre tempo para mais um drible, que quem já ganhou um Mundial e uma guerra sozinho, pode bem ganhar à morte. Custa bastante escrevê-lo enfim, porque se nunca estivemos à altura do que ele foi em vida, jamais estaremos à altura do que ele é agora. Custa bastante escrevê-lo, como teria custado a outro apóstolo de outra religião qualquer. 

Custou a aceitar, mas como noutra religião qualquer, percebi que este seria provavelmente o seu último milagre. Nunca tinha visto tanta gente a falar em Deus numa rede social. Muita gente leu, e não compreenderá o exagero, não compreendendo que o exagero não é nosso, era dele. Não sei se Deus existe. Sei que se existisse, havia de ser assim. Puro, omnipotente, benigno, genial. Perfeito nunca, porque perfeito nenhum de nós é, e teríamos sido feitos à sua imagem.

O que o tornava único era a sua verosimilhança. Era ser intuitivamente genuíno em tudo o que fazia, sem fazer de propósito, nunca com lições de moral, mas sempre do lado certo. Lutando a luta certa, enquanto nos mostrava, a nós comuns mortais, que é possível fazê-lo mesmo se tropeçarmos em todas as armadilhas da vida, sem que isso tenha de beliscar aquilo que somos. Ele mostrava que até os deuses são humanos na maior parte do tempo e que, se calhar, todos podemos tocar em Deus de vez em quando, mesmo sem todo aquele talento, mesmo com todas as nossas falências. 

Para alguém que respira futebol desde que se lembra de respirar, custa bastante despedir-se de Diego Armando Maradona, porque ninguém devia ter de se despedir da pedra sobre a qual construiu a sua Igreja. Ele é o mais importante de todos, ainda que, tal como a Deus, se ele existir, nunca o tenha visto ao vivo, ou em directo. O bom da fé é que não precisa de ser mundana. Somos tantos os que não o viram, mas sentiram, que é fácil constatar que Maradona não é só o futebol que jogou. Maradona é um herói que, por acaso, foi o maior futebolista de todos. 

É um herói pela forma como ganhou, e como perdeu. Um herói real, de carne, osso e alma perante todas as suas extraordinárias circunstâncias, que arranjou sempre forma de fintá-las e de se agigantar, e ser maior do que o jogo, e maior do que a vida. Uma vez li que qualquer comparação era escusada entre ele e os nossos dias, porque mais ninguém seria capaz de carregar a cruz daquele talento como ele carregou. Mais ninguém seria capaz de ganhar sozinho como ele ganhou, transformando equipas banais em equipas extraordinárias, só com um pé esquerdo, uma mão divina e uma aura em forma de juba. 

El Diego até podia ser Deus, mas antes disso era Povo. Era um ídolo popular único, um ícone anti-sistema, sempre a ferver com a bola colada ao pé ou o coração colado à boca, sempre pronto a tomar as dores de quem precisava de ser defendido, como se as suas não bastassem. Ser indiferente é a pior coisa que se pode ser na vida. Maradona tomou sempre partido. Vestiu sempre a camisola. Enfrentou sempre o politicamente correcto, custasse o que custasse. E custou, porque aquilo que nunca lhe perdoaram não foram os erros, foi a rectidão. Sempre que o tentaram derrubar, tentaram pelo carácter, sem perceberem que por aí nunca haviam de lá chegar. Tal como à bola, no carácter ele chegou sempre primeiro.

Fê-lo pelo povo da Argentina, após a guerra das Malvinas, ganhando em campo o que mais ninguém podia ganhar lá longe nas trincheiras, em horário nobre e aos olhos do mundo, quando o mundo não queria ver; fê-lo pelo povo de Nápoles, ganhando em campo o que a Itália pobre do Sul jamais poderia ganhar fora dele; e fê-lo pela gente comum, atirando-se contra o imperialismo e contra os poderes instalados, como a FIFA corrupta, que nunca o absolveu, mas que nunca o pôde ignorar.

Fê-lo, acreditarei sempre, consciente da fragilidade da condição humana, da sua e da nossa, consciente de que tudo isto é demasiado curto para torcer em vez de quebrar quando se acredita nalguma coisa, consciente de que a vida é uma lotaria e que coragem é ter medo, mas ir na mesma. Consciente de que ele podia ir até ao fim do mundo sozinho, para que nós não tivéssemos de ir, como naquela descolagem cósmica no dia 22 de Junho de 1986, quando Victor Hugo Morales narrou o golo do século numa epifania como não houve outra igual, enquanto clamava ao céu, "de que planeta vieste, para deixar pelo caminho tanto inglês?", tanta injustiça, tanta opressão, tanta desigualdade, tanta provação, tanta imperfeição, tanta falha? É sempre possível encarar os nossos obstáculos e ir mais longe. Deus é acreditar nalguma coisa, mesmo se formos os únicos.

Não sei se Deus existe, mas se existir, não morreu hoje. Se existir, talvez tenha só voltado para o seu planeta.

sábado, 16 de maio de 2020

O Bicho que nos salvou


Não me parece que seja possível algum dia esquecer aquele primeiro silêncio, quando acabou o último directo do Bruno na quarentena.

Foram tempos extraordinários, estes que vivemos, que provavelmente só conseguiremos processar daqui a muitos anos. Num dia tínhamos a nossa vida normal e, no dia seguinte, passámos a ter a nossa vida de filme, encerrados em casa, com cidades desertas, uma pandemia na rua e o mundo em suspenso. Ninguém teve tempo de se preparar, nem sequer para a ideia; só tivemos tempo de fugir e esperar que, como nos viriam a lembrar ao longo de muitas noites depois disso, numa frequência clandestina de sobrevivência, havia de correr tudo bem.

Na vida, nem sempre há heróis, mas nos filmes sim, e o Bruno, perante circunstâncias nunca vividas, foi o herói que o país precisava que ele fosse. Escrevo isto sem qualquer pejo, nem ponta de hipérbole. Ao longo de dois meses especialmente difíceis, em que tivemos de deixar de parte quase tudo o que gostávamos, e em muitos casos, as nossas próprias pessoas, o Bruno teve a bondade de estar em directo todas as noites a garantir que pelo menos a sanidade ficava.

O Bruno, temos isso hoje perfeitamente claro, é um dos melhores do mundo naquilo que faz. Não sei se mais alguém nas circunstâncias dele, com o poder que ele reuniu nas mãos, teria tido a grandeza e o altruísmo de levar o Bicho como ele levou. De levar o carinho e a vulnerabilidade e a esperança das pessoas como ele levou. É por isso que os melhores são os melhores. Outros infinitamente menos talentosos teriam sucumbido ao proveito próprio, ao negócio e à oportunidade. Mas não o Bruno. Nós que lá estivemos, sabemo-lo demasiado bem. Com o Bruno, e contra tudo o que podia ter sido, foi sempre pela gente. Pelos amigos dele e por cada um de nós que lá foi por bem, só para beber um pouco de luz na escuridão. Numa era marcada pela urgência da megalomania digital, o Bicho foi um portal para outro encanto qualquer. Foi pureza, honestidade e temperança, foi o melhor que há na amizade e na cumplicidade, foi de coração.

Por muitas coisas que viva, nunca me poderei esquecer da singularidade daquela despedida ontem. Das varandas de Lisboa, e dos quatro cantos do país e do mar, da Madeira até ao Pólo Norte, iluminados de Natal, e da quantidade de gente que fez questão de aparecer, ou de escrever ou de ter um pequeno gesto onde quer que estivesse, só para dizer "obrigado", até ele deixar de conseguir falar e de nos emocionarmos a todos. O Markl disse a dada altura que aquilo era como um final feliz de um filme em que o herói salvou o mundo. Por mais coisas que viva, sei que não voltarei a estar num coliseu que durou dois meses e que acabou com 170 mil almas em directo, um coliseu do tamanho e da distância de onde quer que tenha estado um português a acender as luzes de Natal na varanda, no dia 15 de Maio de 2020, em homenagem ao gajo que nos salvou.

O Bicho não foi só a experiência cultural, imortal e paranormal de uma geração, foi o nosso Live Aid dentro de casa, e ontem dentro de cada uma das nossas ruas, foi o fim do Seinfeld de um país pequeno à beira do mar, mas com um génio, e um coração e uma identidade e uma humanidade absolutamente comoventes. Não me parece que seja possível algum dia esquecer aquele primeiro silêncio, quando acabou o último directo do Bruno na quarentena. Mas não foi um sonho. Porque depois fui à varanda e ainda estávamos lá, a brilhar. Vai correr tudo bem.

sábado, 25 de abril de 2020

Abril, a urgência e a responsabilidade


A Ditadura em Portugal durou 48 anos.

Ceifou vidas e ceifou gerações. Foi o mais longo regime autoritário do século XX na Europa Ocidental. Não sei se temos noção de que somos livres há menos tempo do que fomos oprimidos. Hoje, temos a sorte de poder esquecer. Quem viveu e morreu perseguido e preso, torturado, assassinado ou condenado à indignidade, ao atraso e à pobreza, não se esqueceria com certeza. Temos essa sorte. Pergunto-me, em dias como hoje, quanta gente gostaria de ter podido viver isto, pelo menos uma vez. Quanta gente gostaria de ter podido sonhar com esta utopia de 46 anos de liberdade e que morreu sem um pingo de esperança no país que deixava aos filhos, porque não teve essa sorte. Pergunto-me, em dias como hoje, quantas gerações de portugueses foram aconselhadas a não sonhar, a não ter esperança e a não quererem ser livres, pelo seu próprio bem. Quantas gerações, no caso dos madeirenses até muito depois da Revolução, foram educadas a ter medo de ter uma opinião, uma consciência e a ser gente de corpo inteiro, sem vergonha, sem comiseração e sem miséria.

O bom de Abril é que toda a gente é livre de fazer o que quiser. De comemorar ou não comemorar a Revolução, de ser indiferente ou apaixonado, de acreditar nela ou de desprezá-la. Num país que passou metade do último século pisado e humilhado, é normal que a Democracia ainda desconforte muita gente. É essa a raiz da sua superioridade moral. A mim não me deixa de custar, no entanto, que num país que vive há menos tempo em democracia, do que viveu em ditadura, pareça faltar sentimento de urgência, propósito e convicção. O 25 de Abril acertou em quase tudo. Melhorou quase tudo, transformou-nos em quase tudo. Mas se pecou nalguma coisa, talvez tenha sido na sua falta de auto-estima. Na educação para a cidadania e no combate ao abismo da memória. Para mim, restituir esse caminho é uma questão de dever cívico. Não tenho dúvidas de que o povo estima o 25 de Abril, mas não tenho a certeza se percebe a sua preponderância e a sua actualidade, quando num dos momentos mais difíceis, inéditos e imprevisíveis da nossa História Moderna, tanta gente estaria disponível para sacrificá-lo.

A Revolução não é nossa para sacrificar, porque não fomos nós que nos sacrificámos para torná-la possível. Nós só ficámos com a parte boa. O 25 de Abril não é nosso para sacrificar, porque a Democracia e a Constituição, os direitos, as liberdades e as garantias, os serviços públicos e o Estado Social não se sacrificam; são eles justamente a fina linha que nos separa do vazio nos tempos em que vivemos. Tenho a certeza de que hoje é mais importante do que nunca celebrar Abril. E é ainda mais importante por tudo o que vimos nas últimas semanas. Quando o terror se sente no ar, instigado pelos mesmos de sempre, o povo aflige-se, fraqueja e esconde-se no escuro. Passa a temer a sua própria sombra e a desconfiar de tudo, inclusive do que dá por adquirido, inclusive da bondade da candeia que alumia o caminho. É por isso que toda a luz é essencial. É por isso que temos hoje a missão, como muitos outros melhores do que nós e muito antes de nós, de não arredar pé e arrepiar o caminho. Quantos portugueses foram aconselhados até hoje a não serem livres, na sua vida, no seu trabalho, na sua sorte, na sua terra e no seu destino? Se é para sacrificar alguma coisa, que seja por eles. Os outros não passarão.

Hoje, como em todos os dias dos últimos 46 anos, não nos cabe apenas celebrar. Cabe-nos defender um país que acredita numa vida digna para todos, venham de onde vierem, estejam onde estiverem. Um país de cada qual, segundo a sua capacidade, a cada qual, segundo as suas necessidades. Um país que, com todos os seus defeitos e insuficiências, é um exemplo de progresso e humanismo em toda a parte. Um país em que ninguém fica para trás, com saúde e educação universais, com protecção social e laboral, o que para nós são só mais uns direitos, mas em meio mundo são só mais uns sonhos. 46 anos depois, nem tudo está cumprido, mas que nunca nos falte o sentido, a gratidão e a memória para celebrar um país com liberdade e com esperança. Celebrar Abril é urgente, hoje e sempre, para que o presente nunca nos fuja por entre os dedos. Muitos outros antes de nós, e muito melhores do que nós, gostariam que essa tivesse sido a sua resistência e a sua única responsabilidade.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O golo de uma vida


A atitude do Marega ontem prova, no fundo, o quão fundamental é ir até às últimas consequências pelo que achamos que está certo, mesmo, ou sobretudo, se acharmos sozinhos.

Se ontem o primeiro jogador de sempre em Portugal não tivesse saído de campo a meio de um jogo de alta competição, porque num país civilizado não pode ser tolerável que te apupem como um macaco na rua, hoje não estávamos todos a falar de racismo, não estávamos todos envergonhados porque temos de falar de racismo, e se calhar amanhã, qualquer animal se voltaria a sentir absolutamente impune para apupar outra pessoa na rua como se ela fosse um macaco.

O Marega saiu ontem sozinho de campo, porque evidentemente ficou sozinho em campo, porque quando o macaco não somos nós, o melhor é não fazer caso disso, não exagerar e fingir que não importa assim tanto, que faz parte da selvajaria e que não é "racismo" a sério, é "futebol". Quando o macaco não somos nós, é sempre melhor não arranjar confusão, nem partir os telhados de vidro aos bocadinhos, porque fica melhor não se dar ao respeito e não ser respeitado.

O Marega saiu ontem sozinho de campo, como estaria hoje sozinho na opinião pública, nas televisões, nos jornais e nas redes sociais, caso tivesse fingido que aquilo alguma vez não é tão mau como parece e continuado em campo. Hoje, acabaria por certo no rodapé de um jornal, como um futebolista mimado, problemático e que fez uma cena que não é para levar a sério, o mesmo rodapé da vida real em que todos os dias muitos outros Maregas não são levados a sério, enquanto sofrem a indignidade na pele e em silêncio, pisados como macacos sem milhares de pessoas a ver.

Ao partir a loiça toda, o Marega chocou e assustou o país das aparências e dos brandos costumes, e fez-nos um favor maior do que poderemos admitir, mas que espero que subsista em carne viva na nossa consciência colectiva, e se da próxima vez ajudar um miúdo que seja a não ter vergonha de quem é, e se da próxima vez ajudar um grunho que seja a ter vergonha de quem é, o Marega já fez mais pelo país do que o país lhe poderá agradecer.

Numa época arriscada, em que não temos a sorte de poder apupar fachos em estádios de futebol, que o Marega sirva, pelo menos, para nunca mais relativizarmos o mal que estes comportamentos fazem e já fizeram ao país, e o que alguma escumalha quer voltar a fazer. Que o Marega sirva para traçar a linha que nos define o carácter enquanto homens, porque não há nada mais perigoso do que normalizar a intolerância. E que das próximas vezes, perante o racismo e a xenofobia, perante a caça à igualdade, ao humanismo e às liberdades individuais, não tenhamos vergonha de escolher um lado, mesmo se tivermos de sair de campo e pôr tudo em causa, mesmo sozinhos, mesmo até às últimas consequências.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

ÓSCARES 2020 - preview


Top 10 do Ano

1. 1917
2. Joker
3. The Irishman
4. Marriage Story
5. Jojo Rabbit
6. Ford v Ferrari
7. Two Popes
8. The Case of Richard Jewell
9. Little Women
10. Parasite

Best of the best

MELHOR FILME: 1917
MELHOR REALIZADOR: Sam Mendes (1917)
MELHOR ACTOR: Joaquin Phoenix (Joker)
MELHOR ACTRIZ: Scarlett Johannson (Marriage Story)
MELHOR SECUNDÁRIO: Al Pacino (The Irishman)
MELHOR SECUNDÁRIA: Kathy Bates (Richard Jewell)
MELHOR ARGUMENTO: Marriage Story
MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO: Jojo Rabbit

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Uma terra de deslumbramento


Haverá sítios em que se vive mais rápido, e sítios em que se vive maiores, mas não estou certo de que haja sítios onde se viva mais intensamente. Numa década definida pelo regresso a casa, ao contrário de muitos outros da minha geração, de antes e depois, que não tiveram a mesma sorte ou a mesma oportunidade, este é o momento justo de reconhecer que provavelmente não poderia ter sido de outra maneira.

É provável que a ilha nos destine a todos à sua maneira, uns com a missão de ir, outros com a responsabilidade de ficar. É, decerto, impossível que alguém lhe fique indiferente e é garantidamente impossível qualificar com palavras a comunhão mística que existe entre um ilhéu e o mar e a rocha que o viram nascer. Esta terra corre-nos no sangue. Nascer ilhéu é, na sua própria acepção, cumprir uma profecia que transcende o tempo e o espaço, as partidas e as chegadas, a natureza e as pessoas, os encontros e as despedidas, o calor e a água, e todos os excessos e todas as provações, todos os vícios e todas as estações.

Não sei se um madeirense vive tanto porque um dia escolhemos ser assim, ou porque simplesmente já nascemos a ser assim. Desconfio que a forma como se vive nesta rocha olímpica e tropical é indissociável da ultra-periferia dos primeiros insulares, que nasceram nos limites do mundo conhecido, e de todo o gigantismo moral que é preciso para viver longe, numa ilha pequena, num mundo deste tamanho. Desconfio que no nosso próprio ADN já vêm marcadas as tempestades no mar, os ciclones no ar e as insolações em terra, e que por isso há demasiada energia cá dentro para ficar guardada, na ilha, como em cada um de nós. E é por isso que corremos tanto, festejamos tanto, excedemos tanto, vivemos tanto. Podia não ser assim?

Disse Tolentino Mendonça, numa entrevista no início da década, que "a ilha é um universo onírico. A dimensão da insularidade e a relação com os elementos é muito forte, é uma coisa da qual nunca mais nos livramos. A ilha não é o lugar do crescimento, mas sim da exposição radical ao mundo. A experiência da Madeira é, de facto, uma experiência de universalidade."

A Madeira estará sempre onde cada madeirense estiver. E haverá sítios em que se vive mais rápido, e sítios em que se vive melhores, mas não estou certo de que, ao fim de mais uma década, haja sítios onde o deslumbramento possa ser vertiginosamente maior do que isto.

Bom ano a todos, deste lado do mar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Marriage Story: uma honestidade comovente


Parafraseando uma frase Cruyffiana, fazer cinema simples é a coisa mais difícil do mundo. Contar as relações mais básicas entre as pessoas, provavelmente também. Marriage Story é um filme simples, porque retrata-se de uma forma muito tangível e quase mundana, sem efeitos e sem ter de inventar quase nada; e é garantidamente um filme brutal, como consequência do seu próprio realismo.

O filme é uma das peças mais singulares da temporada, desde logo pela aparente arrogância e crueza da proposta. É um filme sem tempero, mesmo que perante uma digestão muito difícil, dando-se a isso com aquilo que parecia ser, à partida, uma certa sobranceria estilística. Confesso que tinha muitas reservas, porque fazer um filme destes aparentemente a frio, sem pára-quedas e sem fazer concessões a ninguém, normalmente rotunda, e sendo muito sincero, num testemunho pouco tragável. Não é comum resultar num filme notável, mas Marriage Story é isso mesmo: um filme, a todos os títulos, surpreendentemente notável, sem jamais ter falta de noção de si próprio ou perder-se na sua própria angústia.

O que impressiona mais, numa obra sobre perda e desencarnação plenas, é nunca ser demasiado fechado sobre si mesmo; pelo contrário, é a sua notável capacidade para falar connosco, para nos deixar todas as pistas humanamente assimiláveis pelo caminho, e garantir que, enquanto caía, fazia-o com uma empatia intocável para com o público. Marriage Story instiga-nos uma atenção, um cuidado e uma curiosidade permanentes, não de uma forma exploratória, mas antes, quase altruísta, é sempre cativante, e quase sempre impressionante, até na fidelidade para com as pequenas coisas, a partir de um argumento absolutamente invejável, daqueles que às vezes é preciso viver muitas vezes para sonhar escrever (cortesia todo-o-terreno de Noah Baumbach, que produziu, escreveu e realizou), e de um elenco absolutamente extraordinário, com um colosso chamado Adam Driver, definitivamente no topo do mundo, e com a melhor Scarlett de sempre, a parecerem ambos ali genuinamente insubstituíveis e na plena expressão de todas as suas capacidades, rematados, por fim, com um admirável leque de secundários, onde jamais poderia menosprezar o rescaldo de alma que foi rever Alan Alda.

Marriage Story tem o dom de nos fazer viver um processo extremamente doloroso de uma forma sempre razoável, justa e corajosa, e essa honestidade emocional, tantas vezes tão difícil, no ecrã e fora dele, sem melodramas, nem espectáculos, é justamente aquilo que nos arranca todo o respeito que lhe é devido. Porque podia ser connosco, porque se calhar já todos andamos naqueles mesmos lugares e já todos pisamos aqueles mesmos abismos da vida, e porque sobreviver à vida é, muitas vezes, o que nos faz seguir em frente. A vida não é cinematográfica, e o grande cinema tem a responsabilidade de ser mais como a vida, do que como a arte.

Mesmo no fundo, depois de tudo o resto já ter falhado, só há uma excepção que confirma a regra: Marriage Story é romântico até ao fim, mesmo se não puder ser feliz. Essa falência está-nos no sangue, essa esperança é o que nos salva mesmo se não houver salvação, e não somos ninguém para dizer que não é legítimo que assim seja. Era muito difícil fazer de algo feio e complicado, algo simples e honestamente justo, comovente e bonito. A carta final está lá para provar-nos que é sempre possível. É provavelmente a cena mais bonita do ano.

8/10

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

The Irishman: uma homenagem ao Cinema


Era ainda uma simples ideia e já não havia forma de nos tirar o sorriso da cara. Scorsese, De Niro, Pacino e um filme de gangsters saído das nossas memórias mais felizes, como se já todos o tivéssemos vivido em vários momentos e de muitas formas, ao longo dos anos. Uma equipa de sonho saída directamente da História da Arte, não por dinheiro, fama ou devaneio, nem sequer por eles, mas por reverência ao cinema e a tudo o que ele representa para todos os fiéis discípulos desta enorme viagem. Um filme que foi buscar o Pesci à reforma, minha nossa senhora. Mesmo se não fosse muito bom, The Irishman saberia provavelmente muito bem. Mesmo se não fosse o marco que é. Não pelo que tem de passado, mas pela sua intemporalidade para o presente e para o futuro.

The Irishman é um all in de Scorsese. Honra lhe seja feita, é mais um, na verdade. É uma antologia imensa e imensamente ambiciosa, quer na profundidade e na delicadeza da fórmula, quer na largura da narrativa, em que o velho Mestre arrisca tudo, porque ao fim de todos estes anos, essa continua a ser a sua única maneira de o fazer. Uma distribuidora normal provavelmente não lhe daria 3h30 de filme, porque não haveria tempo, mas The Irishman é exactamente a antítese da urgência dos dias em que vivemos: é um filme para esperar e para desfrutar, para afligir e para envelhecer connosco aos poucos, como as nossas histórias preferidas, as nossas maiores provações ou os nossos melhores amigos.

É essa a grande vitória de Scorsese: triunfar com um filme feito exactamente nos seus termos, mesmo numa plataforma inédita, mesmo num formato que nem sabíamos que gostávamos e com as suas velhas glórias, todos agora nos idos dos 70, mesmo sem sabermos se ainda podiam voltar a sê-lo. The Irishman é essa redescoberta permanente, é a restituição do mais puro deslumbramento e da elegância com que o cinema reinventou o último século, um épico de filigrana, como uma fotografia de pasmar, e tempo para conversar e para partilharmos tudo, o lusco-fusco e os gestos, as personalidades que não se substituem e as decisões difíceis que mais ninguém pode tomar. Um filme de Mestre, de um dos maiores de sempre, que volta a usar a mística e os mistérios da Máfia para falar dos nossos próprios vícios, das nossas falências e dos nossos destinos, e ainda assim, do código que nos distingue e do carácter que nos aproxima uns aos outros. Um trabalho fantástico que contou obviamente com a contribuição habitualmente impagável de um argumentista como Steven Zaillian.

The Irishman é um filme de alto quilate, que nos perturba e nos comove mesmo quando não nos apercebemos logo disso. Poder fazer esta viagem com a coragem e a alma do melhor De Niro, que se supera aqui com uma generosidade e uma humildade interpretativa até onde porventura nunca tinha ido, com a fúria e o génio do melhor Pacino, que será vertiginoso até morrer, e com o carisma e a classe do melhor Pesci, todos, por deus, já nomeados para os Globos de Ouro, é demasiado bom para ser verdade. O epílogo do filme deixa-nos com o coração pequenino e liberta-nos nas veias uma nostalgia difícil de controlar. Espero que The Irishman não seja a despedida de nenhum deles, muito menos desta forma de fazer cinema; mas em tudo o resto, é um monumental e arrepiante mausoléu de carreira para a melhor geração de sempre. De uma coisa podemos ter a certeza: se isto é uma homenagem, os homenageados somos nós.

8.5/10

sábado, 23 de novembro de 2019

Venha a nós o Vosso Reino


Final inacreditável, depois de uns meses inacreditáveis, com um impacto inacreditável, aquém e além mar. Este é um feito que vai levar o nome de Jesus mundo fora, mas é especialmente um feito com o condão de tornar um dos treinadores portugueses mais realmente notáveis, num homem um pouco mais unânime no seu próprio país. Como acontece muitas vezes em Portugal, é preciso que nos mostrem de fora o que as palas militantes não nos deixam ver cá dentro. O que aconteceu esta noite, com famílias e amigos de toda a parte a torcer genuinamente por um dos nossos lá longe, nos confins de uma final na América Latina, foi bonito de se ver e foi do tamanho dos verdadeiramente maiores, dos que chegam ao topo pelo seu próprio pulso e pelo seu próprio génio. Ninguém pode dizer que, depois de todas as partidas que o jogo já lhe pregou, não tenha sido do tamanho que ele merecia. Glória Jesus, por mais uma noite somos todos fiéis, somos todos desta religião chamada futebol.

sábado, 9 de novembro de 2019

LULA LIVRE


Qualquer dia com menos um preso político no mundo, é um dia de mundo um pouco mais encorajador. No caso do Lula, a coragem e o mundo são só muito maiores do que nós. Hoje é o início do fim de um assalto ao poder que nos deve assustar a todos, porque expôs a sangue frio a fragilidade e as perversões do sistema em que vivemos, o início do fim de um golpe palaciano contemporâneo, que nos ensina a jamais baixar a guarda, porque o tempo passa, mas a História volta sempre para nos assombrar, e a putrefacção do Brasil conservador, corrupto e saudosista voltou para engolir de volta um Estado de Direito inteiro. Aos fachos, as duas garantias de sempre: estavam certos, a democracia mete medo; estavam certos, mas não passarão. LULA LIVRE!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Obra-prima.


Um Joaquin Phoenix de outro mundo, entre os melhores dos melhores da actualidade.

Uma narrativa genial, na ambição, nas referências e no risco, no carácter e na caracterização, e na insustentável e assustadora fragilidade da condição humana.

Uma estética de sonho, na direcção, na fotografia, nos compassos e na banda sonora.

Um filme sem rede e um pontapé no estômago. Mais do que heróis ou vilões, um filme de gente e do que às vezes sobra da gente nos farrapos da vida.

Obra-prima.

9/10

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A alternativa ao medo

Foto: André Gonçalves

No próximo domingo, dia 22 de setembro de 2019, a Região Autónoma da Madeira poderá ter, pela primeira vez em 43 anos de Democracia, um Governo que não é governado pelo Partido Único.

Não sei se já toda a gente parou para pensar no tamanho deste abismo da História que tem à sua frente. No próximo fim-de-semana, daqui a menos de quatro dias, todos os madeirenses, pais e filhos, homens e mulheres, avós e netos, terão nas suas próprias mãos, num ato tão gloriosamente singelo como o do sufrágio universal, a oportunidade mais real da nossa vida para garantir, pela primeira vez, uma alternativa democrática no governo desta terra.

E o que raio é a democracia, se não a alternativa? Se não a ideia de que é legítima a governação de qualquer homem, venha ele de onde vier, desde que eleito em igualdade de circunstâncias? O que é a democracia se não a ideia de que nenhum poder absoluto é legítimo? Nenhum partido pode ficar no poder 43 anos seguidos como se isso fosse normal, razoável ou, sequer, remotamente são. Reiterar isto, por mais básico que seja, é tanto mais extraordinário se pensarmos que na Madeira nunca houve igualdade de circunstâncias, e por isso nunca houve alternativa: porque as pessoas, adormentadas, enganadas ou mesmo coagidas, aceitaram a ideia de que não podia haver.

Até hoje, a democracia no Governo Regional da Madeira é isso: é a premissa, que o PSD continua incrivelmente a defender até hoje, no ano 2019, de que não há, nem poderá nunca haver alternativa. A democracia na Madeira foram, por isso, 43 anos de poder absoluto sobre poder absoluto, de um enorme monstro que se alimentou a si próprio e sufocou tudo à sua volta, socorrido do mito das “eleições ganhas”, como se num casino a casa não ganhasse sempre. Qual é a legitimidade de tanta maioria absoluta do regime, quando sabemos que as eleições do PSD foram, historicamente, a vitória do nosso atraso sócio-cultural, a vitória do betão sobre a educação, a vitória do culto do chefe e do partido-Estado, a vitória dos empregos da máquina e das obras megalómanas para os amigos, a vitória da perseguição e da descredibilização de quem pensa diferente, a vitória do medo.

O mesmo medo que o PSD continua a instigar, 43 anos depois, com as mesmas fórmulas bafientas de qualquer cacique, as mesmas mentiras e o mesmo vale-tudo constante, a mesma insuportável e insuperável prepotência de uma casta que acha que é ungida por deus, e que segreda às pessoas que o inferno desce à terra se o PSD descer à terra, que a ilha afunda, o mar acaba, que vamos ser todos Cuba e a Venezuela, que vão todos perder o seu emprego, o seu salário, o seu tecto e o seu prato de comida, quando os socialistas, comunistas, bloquistas, esquerdistas, anarquistas chegarem ao poder para lhes devorarem as criancinhas. Porque não há alternativa ao saber, aos quadros e à experiência de um partido cujo único know-how em meio século foi investir na sua própria sobrevivência, à base do atraso humano e pensante dos madeirenses, porque um povo amarrado a não pensar pela própria cabeça, é um povo que nunca vai ser perigoso, porque um povo ameaçado, é um povo que não ameaça.

Isto não é uma piada, é a dialéctica do PSD Madeira, ou melhor, é uma piada que já nos custou muito caro e que hoje, mais do que nunca, nos devia envergonhar a todos. Este PSD é a carcaça que sobra de um regime falido e esgotado, que já não tem por onde fugir. Ouvir Albuquerque dizer que vai pavimentar florestas “quer queiram, quer não”, que vai fazer campos de golfe em promontórios, “quer queiram, quer não”, que as alterações climáticas não existem, enquanto se desmantelam leitos de ribeiras inteiras, já é só humilhante, como será quando ele disser que também quer construir um túnel até ao Porto Santo, a ver se é desta que tem uma overdose de betão, paga com dinheiro público, como de todas as outras vezes.

O Presidente do PSD é um homem doente, rodeado de demagogos febris, cegos e incendiários, que continuam a achar que o partido é uma entidade plenipotenciária qualquer, e resta o dó de constatar a forma como o PSD parou mesmo no tempo, vociferando cartilhas empoeiradas de qualquer ditadurazinha de algibeira, e deixando-se ficar, no limite da sua demência, a brigar contra os inimigos imaginários, ou a República, a ver se, ainda hoje, os iscos de pão, berros e circo são suficientes para enganar um povo humilde, que sucumbiu a tanta década de chantagem, porque esta é uma terra de vidas sofridas e difíceis o suficiente, para ainda ter de suportar tanto medo assim.

Mas 43 anos são muitos anos, até para ter medo.

Pode ter demorado 43 anos, mas a Democracia chega sempre a tempo e hoje, felizmente, há alternativa na Madeira.

E se há, é graças aos próprios madeirenses que, tal como em tantos outros momentos dos seus 600 anos de História, foram capazes de ultrapassar todas as suas espectaculares contingências, seja a rasgar pedra, o mar, ou os seus próprios fantasmas, até darem a volta por cima, e terem melhores condições de vida para si e para os seus, e terem, afinal, o direito a sonhar que é sempre possível ser um pouco melhor, por piores que sejam as nossas circunstâncias. Que é sempre legítimo viver com esperança no que pode ser o amanhã.

Não sei se já toda a gente parou para pensar no tamanho deste abismo da História que tem à sua frente. Mas hoje, 43 anos de Democracia em 600 anos de vida depois, a Madeira tem alternativa porque os madeirenses tiveram, como sempre, a coragem de fazer por isso. O PSD é a cruz que nos calhou um dia; mas o futuro é, definitivamente, fazer o que ainda não foi feito. O futuro não é chantagem, nem prepotência, não são as elites bacocas, nem as negociatas do regime, não é a emigração, nem a falta de educação, de saúde, nem de oportunidades, o futuro não é o medo; o futuro é a esperança de mudar para melhor, de ter uma governação humanista e progressista, educadora, moderna, inteligente e sustentável, de que nos possamos orgulhar aqui dentro e lá fora. O futuro é uma autonomia de resultados, uma insularidade de sonhos, uma ultraperiferia de ideias e de soluções e de globalização, com melhor qualidade de vida, e sanidade democrática de primeiro mundo. O futuro é a busca pelo que esta gente merece, toda a gente, cada um de vocês, e não o quinhão a que aqueles que se julgam donos da Madeira nos condenaram.

Em democracia, não há governos de partido único para a vida toda e é doloroso ainda ter de lembrar isso hoje. Mas se nunca tivemos coragem para fazer diferente, nem engenho, nem oportunidade, há quem tenha tido coragem por nós, e é por isso que agora temos a responsabilidade de retribuir, porque há momentos na vida em que temos a responsabilidade de estar à altura daquilo que gostávamos de ser. Este domingo, não se conformem, não se escondam, não se desculpem, não fraquejem, não falhem àquilo que sabem que está certo e que precisa de ser feito. O voto necessário não é num homem, nem sequer num partido, é um voto na vossa própria consciência. Um voto que prove que há sempre alternativa e há sempre esperança, que honre que mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Domingo é a vossa vez. É a vez de serem vocês a resistir. É a vez de serem vocês a mandar.

Se o Paulo não está preparado para governar a Madeira, nunca ninguém estará. Ele não teve medo. Agora é a nossa vez. A alternativa ao medo somos nós.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Campeões


Há 15 ou 20 ou 40 anos havíamos de rir de quem dissesse que íamos andar a ganhar competições de selecções a cada três anos. Este é um final feliz de muita gente, mas acima do talento que nunca faltou, é o final do carácter que nunca tinha chegado. Além do melhor jogador português de todos os tempos, pelas óbvias razões, um obrigado de coração ao Fernando Santos. Pela fé, pela mentalidade e por essa enormidade que é ter acreditado, quando acreditar era difícil. "Não somos favoritos, mas vamos ganhar", disse ele há exactamente três anos no Parque dos Príncipes, antes do jogo mais importante da nossa vida. Havemos de viver para sempre nessas palavras. O Ronaldo mostrou-nos que é possível ser maior do que a vida, o Engenheiro mostrou-nos que é sempre possível ser maior do que as nossas circunstâncias. Já não somos gerações de talentos; somos uma geração de campeões.