terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os refugiados de espírito


"Só não poderemos tolerar a intolerância"
Karl Popper

Neste último par de dias, vi boa gente a tentar educar. A tentar argumentar e sensibilizar. Pela informação, pelo contexto, pela humanidade. A tentar colocar as coisas em perspectiva. Fazer contas, relativizar. A tentar desconstruir pelo bom-senso xenofobias inteiras. A tentar explicar coisas tão simples como que os sírios não nos vão invadir o país. Que são tão poucos, afinal, os que vêm. Os que conseguem vir, porque não morreram pelo caminho. Que aquilo que nos prestamos a fazer agora é, no fundo, não mais do que um gesto simbólico, de quem sempre virou as costas ao problema, de quem os deixou sucumbir até ser humanamente insustentável. De quem contribuiu decisivamente para lhes implodir a balança de poder e deixou meio continente ao fogo e à sua própria sorte. Não vou tentar explicar que os refugiados não nos vêm assaltar as casas. Nem fazer guerras civis no coração das nossas cidades. Que não vão criar milícias subsarianas, nem sequer roubar os nossos trabalhos. Que não vão tirar o comer da boca das nossas famílias, nem propriamente desalojar os nossos pobres. Não vou, porque tenho a minha inteligência em melhor conta do que isso. Não vou, porque se vocês precisam desse convencimento, não merecem realmente o meu tempo. O único sentido deste texto é falar de imbecilidade e para isso, felizmente, não preciso nem de teorias, nem de estatísticas. Porque se vocês olham para seres humanos que já perderam tudo, toda a pequena miséria que algum dia tiveram, que já perderam a sua réstia de esperança, o seu fiapo de dignidade e, até, os seus próprios filhos, e que se sujeitam a fugir para as nossas praias em condições muito piores que as dos piores animais, num caminho com chances espectaculares de os matar, se olham para esses seres humanos, e o vosso instinto não é imediatamente o de ajudar, e ter o dó de aliviar-lhes a dor, desejando-lhes, pelo contrário, que morram mas que não vos cansem a vista, porque não querem andar nas mesmas ruas do que eles, então não é o meu tempo que vocês não merecem. É o meu respeito.

Ontem acordei e tinha voltado à Idade Média. O exercício tem menos piada do que julgava em miúdo. Afinal há muito pouca magia em ter tanta gente à volta a pensar com séculos de atraso. A dada altura, já esperava que viessem autoridades a cavalo pedir que nos dirigíssemos para a parte amurada da cidade, e que começassem a distribuir armaduras à medida, escudos e espadas a metro, mas ainda não. O barco dos refugiados ainda não deve ter saído. Afinal há mesmo muito pouca magia em viver no nosso próprio buraco, alheios a esse mundo estrangeiro e tormentoso que há de estar lá fora, a vomitarmo-nos a medo de ódio por quem não conhecemos. Sabe-me bem ouvir que esses terroristas querem vir para cá e nem compreendem o nosso estilo de vida. Que virão, com certeza, destruir todas as nossas conquistas sociais. Não é deliciosa a ironia? Todas essas entesouradas conquistas do Estado de Bem-Estar, para o qual todos aqueles que abrem a boca teriam poeticamente contribuído zero, merda nenhuma, porque estariam muito preocupados a emparedar-se nas suas próprias casas, de trancas à porta, sequiosos de manterem cada singular privilégio que deus ou a sorte lhes deu, e que apodrecessem "os outros" à vossa porta, que com isso podiam vós bem. O Estado de Bem-Estar que não existia se fosse à vossa consideração, e o qual devem a gente infinitamente melhor do que vocês, seres humanos um bocadinho maiores, um bocadinho mais generosos, um bocadinho mais visionários e corajosos, que ousaram usar a sua condição para melhorar a vida de todos, por acreditarem que valia a pena que todos tivéssemos as mesmas condições e as mesmas oportunidades, ou que pelo menos tentássemos. Fôssemos um adulto rico na Suécia ou um velho pobre em Portugal, fôssemos até, e que o raio nos parta, no continente mais espectacularmente cosmopolita que existe, um miúdo orfão que teve o azar de nascer numa guerra na Síria. É isso o Estado de Bem-Estar, é esse o vosso estilo de vida, que só foi possível por culpa de gente que acreditava em tudo o que vocês não acreditam, gente capaz de, com tudo na mão, com tudo a seu favor, tirar a cabeça da sua própria fossa e ter um gesto de generosidade para um século a seguir, quando vocês não são capazes de, sentados em todo o vosso gorduroso conforto, na sociedade mais protegida e privilegiada da Terra, ter um gesto de generosidade no vosso dia-a-dia.

Vejo a cara dum pai migrante realmente destruído, derrubado e morto por dentro, a chorar na desolação duma praia porque não podia, porque pura e simplesmente não podia salvar a própria filha, um tipo como nós, que às vezes olhamos para os nossos e pensamos que lhes falhámos, que os desiludimos, mas numa alucinação muito mais radical, que é não ter condições para se ser pessoa de pleno direito, e dá-me nojo ouvir que eles queriam era vir para este bem bom. Gente a quem ruíram a casa, queimaram os campos e assassinaram a família, gente sem poupança, sem cama e sem sequer um maldito lugar para ainda chamarem de país. E o ridículo que é lhes darmos um tecto para dormir e um prato para comer, aos menos de 1% que conseguirem chegar, é que é o vertiginoso e intolerável abuso que eles nos querem sugar das mãos. Ou então, ver os que ao menos têm a gentileza de reconhecer que eles só vêm porque a alternativa era um tiro, uma bomba ou um afogamento, mas que logo depois se corrigem, para lembrar que eles vêm, mas que não nos respeitam. Que "ouviram dizer" que eles cospem nos cestinhos da Cruz Vermelha, porque está lá o Cristo. Que jamais vão caber aqui, que têm repulsa do que somos. Acham que é possível fugir para um lugar cujo modo de vida se abomina? Que é realmente possível desprezar um sítio que nos salva a vida? Acham realmente que isto não é tudo o que eles nunca puderam ter? A Europa vai acolher uma ínfima parte do que estão a acolher a Turquia, a Jordânia e o Líbano, todos países malditos e muçulmanos. Acham que se eles nos tivessem asco, vinham? Vocês iam? Ponham a mão na consciência. Tenham vergonha na cara.

A grande vitória do Estado Islâmico não é recrutar radicais locais, é dar de comer aos nossos terrores ignorantes, deixar fermentar um bocadinho e depois sentar-se a rir do espectáculo. Da maneira como, ligeiramente arrastados para fora das nossas zonas de conforto, começamos logo a bulir e a convulsar, capazes de sacrificar tudo e todos porque nunca nos faltou nada e, portanto, nunca tivemos de dar o valor a coisas um bocadinho maiores do que os nossos caprichos preconceituosos e do que os nossos dramas de algibeira, coisas, sei lá, como a guerra, a fome ou a vida e a morte das outras pessoas. Ver gente de 25 anos, da minha idade, que vive na maior sociedade de informação da História da Humanidade, que tem acesso a mais conhecimento num dia do que há 100 anos se tinha na vida, gente que pôde ir conhecer o mundo e que teve todas as oportunidades e que, à primeira vez em que é chamada a comportar-se como adulta, cria petições no facebook para expulsar quem ainda não chegou, é uma tragédia tão grande como a dos que fogem.

De repente, do que nos lembrámos todos é de que há muitos mendigos em Portugal e de que eles é que precisam da nossa ajuda. De que há idosos a morrer sem medicamentos, crianças a passar fome e sobeja falta de emprego. De repente, vimos a luz. Pena é que esses proféticos patriotas só a tenham visto agora. Pena minha ter de lhes dizer que, se toda essa gente infelizmente existe assim, é porque primeiro falhámos enquanto sociedade. Porque, no fundo, fomos demasiado como eles. Demasiado hipócritas, demasiado preconceituosos, demasiado egoístas. A verdade é que aqueles que se inflamam são os mesmos que não dariam uma moeda a um sem-abrigo. Ou um lanche a quem tivesse fome na cara. Os mesmos que provavelmente mudariam de passeio se vissem um árabe na rua, apesar de irem à missa todas as semanas. Não se enganem: estes arautos da Nação tratariam exactamente da mesma forma o migrante sírio e o pobre português da vossa rua. Não é uma questão de circunstância, nunca foi. Do que se trata é da maneira de estar no mundo. É da cotação que se dá à dignidade humana. As coisas devem ser simplesmente postas nesses termos: boas e más são as pessoas, não as situações. E as pessoas agem sempre da mesma maneira. O que é insuportável é estar a ver de um lado todo um argumentário sócio-económico-cultural, e do outro só a boa vontade envergonhada, que quase parece irresponsável e criminosa, de quem acha que deve fazer a coisa certa. E enquanto uns têm todas as certezas, aos outros sobram as dúvidas, porque ninguém fala por eles. Porque ninguém lhes reitera que sim, que eles é que estão certos, que pensar assim e ser assim vale a pena. Por isso é que todo o reforço é pouco. Por eles é que é importante dar a cara. Sim, pelas pessoas boas, porque há gente boa e há gente má. Há gente que presta e há gente que nunca vai contar. Hoje em dia, se quisermos conhecer o carácter dum homem, bem podemos olhar para a forma como ele trata os seus refugiados. 

O que me apeteceu escrever era que tinha vergonha de ser português. Mas não. Tenho é vergonha duns quantos de vós. Porque, com todas as falências que temos enquanto povo, se há coisa de que nos podemos orgulhar nos quatro cantos do mundo é da nossa humanidade. Portugal, o país solidário, hospitaleiro e de paz, histórica e culturalmente mestiço, que recebe sempre como se recebe em casa e que o voltará a fazer mais uma vez, o país que terá sempre nas suas pessoas o seu maior e mais nobre activo. Um país bom, conservador mas tolerante, que foi o primeiro do mundo a abolir a pena de morte, que serviu de refúgio a todos os credos na Grande Guerra, onde todas as cores aprenderam desde muito cedo a viver iguais. Um país com uma diáspora monumental, que inventou a globalização e que foi dar novos mundos ao mundo, e que sempre fez vida a viver com os outros. Um país que cultiva a esfera armilar na bandeira e no coração de todos quantos partiram em busca de uma vida melhor, de uma singela oportunidade, de um voto de confiança de quem estava bem e não tinha nada a ganhar. E que, por isso, aprendeu melhor do que ninguém a respeitar quem é diferente. Que, por isso, sempre teve o brio e o orgulho de viver à altura do respeito que lhe foi confiado. Será que os nossos justiceiros da praça pública não têm familiares emigrantes? Um ou dois há de ter. É que há 5 milhões de portugueses lá fora. Se calhar até têm todos. E se os vossos tios, primos e amigos, se porventura os vossos pais tivessem sido escorraçados e tratados como cães doentes? Qual era a diferença?

No fim, eles, os refugiados, são mais livres do que vós. Eles conseguiram fugir duma guerra. Vocês ainda não conseguiram fugir das próprias cabeças. Dessa pobreza nenhum barco vos pode levar.

8 comentários:

Susana Morais disse...

Obrigada! 👏

José Oliveira disse...

O que fizeram os portugueses aos portugueses que fugiram de África após a descolonização "exemplar"? Eram retornados e até a família muitas das vezes foram as primeiras a fecharem a porta na cara dos ditos retornados. A memória é curta. Mas agora perante esta invasão é politicamente correcto abrirem-se todas as portas.

Zé Luis SF disse...

Paulo do melhor que já li. A energia que desperta nos xenófobo o combate à ameaça era o maná de Goebels. Deficientes que eram bocas inúteis e desvios genéticos, judeus bolcheviques que tinham traido a Alemanha na 1a guerra, ciganos que roubavam, eslavos subhumanos, e todo um chorrilho de desculpas para libertar odios mesquinhos, e fazer sair o mini-nazi que existe em muito cidadão comum

Sergio disse...

Excelente texto! Parabéns!

Catarina Castro disse...

Excelente. É mesmo o que dizes. A ignorancia por opçao é o que destroi o mundo.

Aquarela disse...

finalmente! Obrigada por ter dito o que eu queria e não consegui.

Anónimo disse...

Eu pertenço a uma dessas famílias que fugiu das ex-colónias para não morrer. E sou também aquele que acha que SIM, devemos abrir as portas aos refugiados. O ressabiamento nunca foi bem-vindo.

Laura Branco disse...

Excelente Paulo!!! Fiquei com muito orgulho em ti. Parabéns ;)