sábado, 28 de fevereiro de 2015

Peaky Blinders. Quem disse que já não havia gangsters para inventar?


Sou fã confesso de Cillian Murphy desde uma pequena monumentalidade chamada 28 Dias Depois (2002). O meu melhor filme pós-apocalíptico de sempre foi, então, um palco ímpar para o seu talento e para a sua presença tão extremamente peculiar. Cillian Murphy é um daqueles tipos que tem qualquer coisa. Uma inquietação no corpo, uma projecção de desassossego, um olhar flamejante e psicopata. Não é à toa que vestiria depois, com tanta naturalidade, os papéis notórios em Batman Begins e Inception. Há qualquer coisa nele de perturbador e, portanto, imediata e intrinsecamente crível. Ter uma ribalta que o capitalizasse era, por tudo isso, uma mera questão de tempo. Peaky Blinders, a série do ano para o The Guardian, é o seu tour de force numa passadeira vermelha.


No mundo da ficção criminal, é uso achar que já se fez tudo. E provavelmente já se fez. É inequivocamente o género mais explorado e o mais popular, e todos os anos multiplicam-se os argumentistas tão empenhados como garimpeiros, à procura de uma última onça de ouro, numa mina já vastamente devassada. Peaky Blinders, todavia, é uma dessas epifanias realizadas. Criada pelo britânico Steven Knight, a história é a da ascensão de uma família de bandidos de rua, ciganos e arraçados, desde as sarjetas de uma cidade pobre e industrial como Birmingham, no pós-I Guerra Mundial (1919), até à entrada na Londres dos anos 20. Nestas coisas, o habitual é tentar sempre auscultar o segredo do sucesso: existe, pois, uma nuance particular que torna Peaky Blinders especial? Não, não necessariamente e, aqui, vou voltar a bater numa tecla que me parece sempre descurada mas que, até ver, considero primária no campo da ficção: o segredo não está em inventar a roda... mas em reinventar as pessoas, os lugares, os contextos. Uma série pode ser geneticamente única, e de alto nível, mesmo com as roupas que passámos a vida toda a encontrar noutras paragens, assim tenha a sua individualidade. Peaky Blinders é fenomenal por várias razões. 


A primeira, e a mais sintomática, faz-nos voltar ao início: nada daquilo seria possível sem um lead como ele. O seu Thomas Shelby é majestático e, por esta altura, é um insulto que ainda não tenha chegado nem aos Emmys, nem aos Globos de Ouro. Como sempre, o mais impressionante da sua performance continua a ser essa tal naturalidade que lhe está na pele. A autoridade brutal e atordoante que emana, no seu passo lento, nos gestos lânguidos, na voz certa e no foco aterrador que empresta a qualquer conversa, como um velho em sabedoria e em segurança de si, mas no corpo de um jovem, efeito que causa um alerta ainda mais grave. Shelby é um personagem genuinamente fascinante, cru, sem nunca ser cruel, amoral, sem nunca ser mundano, inescrupuloso, sem ser realmente mau. É um homem tantas vezes inelegível, fechado com os seus próprios fantasmas, e não sei se nalgum momento conseguimos perceber verdadeiramente o alcance do seu fardo. O único dado adquirido é que a família é o seu compromisso incondicional. A melhor forma de descrevê-lo, encontra-mo-la no dono de um bar, que ele próprio usurpara:
What I got was an ultimatum. Like you give to everybody. Do it, or else. And yet, it's funny. Everybody around here, they want you to win this battle. I think, what it is, is that you're a bad man, but you're our bad man.
As duas temporadas crescem exponencialmente com ele, finalizando essa corrida de 12 episódios (6 + 6, com um intervalo temporal de dois anos) duma forma gloriosamente ambiciosa, agonizante, esmagadora. Um dos desfechos mais perfeitos que já presenciei em televisão.


Peaky Blinders cumpre de corpo e alma esse histórico mantra das grandes segundas temporadas, invariavelmente melhores do que a época de estreia. A primeira tem as falências típicas de uma série que ainda está verde. Ameaça demais sem concretizar, falta-lhe medo, falta-lhe risco. A segunda, pelo contrário, é toda ela terrivelmente negra, completa, certa do que é e de para onde vai. Se Cillian Murphy é a pedra sobre a qual tudo se constrói, os créditos do seu antípoda não devem ficar por mãos alheias. Sam Neil é duríssimo, no sobretudo do Inspector Campbell, também ele a fazer uso duma característica estruturante do seu contra-papel: uma insuperável credulidade da personagem. Não há ali nada forçado, exagerado, mal medido. Nada que nos desalinhe a ficção da realidade e nos faça pensar que, afinal, é tudo menos sério do que parece. Campbell é desprezível por natureza. Desamorável, amargo, temível. Não é um psicopata, nem é um moralista, é só vil por dentro, e a sua presença é permanentemente perigosa. A dança entre os protagonistas, o dilema de serem tantas vezes tão iguais e, ao mesmo tempo, tão distantes, e a ferocidade predatória com que se encaram uma sobre outra vez constituem o eixo mais reverencial de Peaky Blinders. Os seus frente-a-frente são sucessivas jóias televisivas, como se tivessem nascido para aquilo, quais De Niro-Pacino, à sua devida escala.


Como em qualquer grande balneário, a série vive sobremaneira do espírito de equipa. Da simbiose familiar sacramentada a cada reunião, a cada problema remediado, a cada escape contra as cordas, impecavelmente articulados entre a figura determinante e senhorial de Thomas, o homem-criança, tão leal e assombrado como um soldado, que é Arthur (Paul Anderson), o ingénuo mas empreendedor John (Joe Cole), a problemática e errante Ada (Sophie Rundle) e, ponteados, claro, com a aura grave e matriarcal de Polly (Helen McCrory), a Tia omnipresente, intensa e incontornável. É uma série com carácter colectivo, com personagens imperfeitos e, por isso, reais, que podem ser menosprezados à luz individual, mas que, tal como a própria família, se transcendem como um todo. Vale a pena aludir, ainda, às participações especiais, onde se destaca, como não poderia deixar de ser, o grande Tom Hardy, enquanto chefe da máfia judia em Londres, na segunda temporada.


Como joker, temos a lead feminina mais viciante que vi em muito, muito tempo: Annabelle Wallis é Grace, uma agente dupla norte-irlandesa absolutamente deslumbrante - e aqui vale a pena parar um segundo, para interiorizar o adjectivo - que, pura e simplesmente, torna hipnótica cada cena em que nos presenteia com a sua presença. É uma mulher numa missão, resoluta e comprometida, uma missão maior e mais agreste do que a própria, mas que ela se condena a responder, mesmo quando as suas circunstâncias começam a mudar. Grace vai viver num dilema entre mundos e a sua fragilidade é sempre demasiado sedutora. O romance inevitável com Shelby é visceral, inebriante, total. Uma viagem sem rede, que vai cruzar traição, família, desencontro e perda, com uma química em ecrã tão tangível, que não pode deixar ninguém indiferente e que tem de fazer inveja aos maiores.

Peaky Blinders é demasiado bem realizada - cunho BBC -, tem uma banda sonora constantemente de elite, um lead magistral, um romance, uma rivalidade, uma família e um desígnio, e um carisma tão, mas tão pesado, que a torna honestamente imperdível. É, com toda a probabilidade, a próxima grande série a que vão assistir.

8.5/10

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