segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O assalto a Lincoln, o banquete de Homeland e um hosting quase a fazer esquecer Gervais. Globos 2013


Algo de muito estranho se passa com uma cerimónia na qual Lincoln é o grande derrotado e Argo o grande vencedor. O filme de Ben Affleck sobre o resgate de diplomatas americanos de Teerão, em 1979, tinha perdido alguma fé no fim da semana, quando o próprio Affleck ficou fora das Nomeações para os Óscares, mas ontem levou a noite, com Drama e Realizador. Gosto sinceramente de Ben Affleck, e a sua realização até será uma das coisas boas de um filme que, no entanto, fica irremediavelmente à margem do que poderia ter sido, mercê de uma adaptação de argumento que o faz sempre plástico, insuflado e com suspenses de 3ª categoria. O filme tem muita gente boa envolvida, viu-se ontem o quanto acarinhada no meio, mas torná-lo no melhor do ano é uma infelicidade imperdoável.

Lincoln, por sua vez, todo ele excelência, ficou com o Globo de Day-Lewis, que de jeito nenhum lhe poderia fugir, mas acabou como o patinho feio da festa. Por comparação, a realização de Spielberg é um tratado, uma senhorialidade, e o argumento de Tony Kushner é brilhante, emprestando-lhe uma majestade absolutamente reverenciável (como o próprio Day-Lewis fez questão de reconhecer quando subiu ao palco). Vi 3 dos 5 nomeados, e achar que Lincoln não iria ganhar parecia-me, no melhor dos casos, um disparate. Esperemos que nos Óscares, e porque a Associação de Imprensa Estrangeira tem por gosto marcar diferenças para a Academia, se emende a mão a este desterro.

Les Misérables foi o outro grande vencedor da noite, aproveitando a cisão dos Globos entre Dramas e Musicais/Comédias. Levou Filme, Actor e Secundária, fazendo uso natural do seu estatuto. Ainda não vi, portanto dou um pequeno benefício da dúvida, mas não me parece que, por mais majestático que possa ser, seja realmente melhor do que uma pérola tão imensa como Silver Linings Playbook, e do que o seu nível desmedido de história e interpretações. É criminoso que tamanho filme não tenha tido reconhecimento nem nos Globos, onde o caminho era bem mais desimpedido. Felizmente, a espantosa Jennifer Lawrence colheu o primeiro grande troféu da carreira, e ainda alimenta um fio de esperança para os Óscares, apesar de Chastain, que também ganhou ontem, como esperado, já ter uma mão na estatueta.

Quem também não saiu com muitas razões de queixa foi Tarantino e o seu Django. Quentin levou para casa o segundo Globo de Melhor Argumento, e isto quando a categoria, ao contrário dos Óscares, funde os Originais e os Adaptados, precipitando notoriamente a concorrência. Num ano de grandes textos, é um prémio notável, que aguça ainda mais a curiosidade para o filme. Também Christopher Waltz venceu o segundo Globo de Secundário em quatro anos, consolidando o filme (e derrotando um Tommy Lee Jones de luxo, também por Lincoln...).

Nas séries não houve, felizmente, muito pano para mangas, e Homeland passeou-se com toda a pompa que merecia, ganhando Drama, Actor e Actriz. É o reconhecimento justificado à qualidade mais suprema do ano que passou, e uma vez mais. Bisaram a série e Claire Danes, Damien Lewis redimiu-se da derrota injusta no ano passado, e só ficou a faltar Mandy Patinkin, como Secundário, para a festa da série do ano ser total.

Em Comédia, com vitória para Série e para Lead feminina, emergiu um nome para olhar em breve: Girls, de Lena Dunham, pelo ano de estreia, e a destronar Modern Family. Também Game Change, um telefilme sobre a candidatura republicana à Presidência, em 2008, deu seguimento às vitórias nos Emmys, e venceu Mini-série, Actriz e Secundário.

Duas últimas notas: a primeira, o Globo de ouro mais do que justificado para a brilhante Maggie Smith (Downton Abbey), num papelão que já lhe tinha dado dois emmys, mas nenhum globo; a segunda, a consternação pelo pior Pixar de sempre ter ganho Animação à mesma. Era obrigatório exigir muito mais.

Tina Fey e Amy Poehler fizeram um hosting belíssimo. Não sigo de perto o trabalho de nenhuma delas, mas toda a gente estava a confiar, e brilharam as duas, com uma química farta e uma certa omnipotência em palco. Por mim, Gervais teria um contrato vitalício para estas coisas, mas foi uma aposta perfeitamente feliz da AFP, e fazia falta ter mulheres deste nível a fazer estas coisas.

Para momentos da noite, Jodie Foster, necessariamente, na recepção do Cecil B. DeMille Award, a falar com uma altitude reverencial da vida pessoal que até foi tema de gozo na cerimónia do ano passado, e que a coroou como a grande senhora da noite. A vitória candelar de Adele, em Música Original, a marcar o ponto de honra do injustiçado Skyfall, foi outro dos momentos bons, secundado pelas subidas de um quase nobiliárquico Day-Lewis e, apesar de a contra-gosto para mim, de um Ben Affleck que foi the coolest guy around.

Grosso modo, é ficar a contar agora com boas surpresas no que me falta ver (Django e Miseráveis, sobretudo), e esperar que, nos Óscares, os prémios sejam quase todos ao contrário.

3 comentários:

Júlia Rocha disse...

Concordo contigo na atribuição de melhor filme comédia e musical. Já vi Les Misérables e acho que Silver Linings merecia mais, apesar de Hugh Jackman ter vencido com toda a justiça (tb gostei muito de Les Mis). Mas o facto de ter gostado taaanto de SLP pode estar a toldar-me o juízo.
Ben Affleck recebeu melhor realizador, e muito bem acho eu! Mas ainda não vi Lincoln, por isso, ainda vamos ver... :) Parebéns pelo texto Paulinho. Great as always.

Paulo Pereira disse...

Gosto mesmo do Affleck, e tenho pena que um gajo que já ganhou um Óscar com um filmão como o Good Will Hunting, e que prometeu tanto no The Town, esteja a ser reconhecido por um filme que, pese ele fazer um trabalho bom, acaba por ser tão pão sem sal. Hás de ver o Lincoln. Para mim, pelo menos, não tem comparação

Aline disse...

Deixem-me ser inócua e dizer que Girls é viciante e perigosamente próximo da nossa realidade. :p