quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Don Jon. Gordon-Levitt inventou (e vitimou) o filme mais ambicioso da temporada


Don Jon é um filme surpreendente. Despudorado, provocador, politicamente incorrecto e raro por isso, mesmo que não mantenha esse nível até ao fim. Narra a história de um tipo cru e musculado, povoador de discotecas e muito bem sucedido com o sexo oposto mas que, por ironia do destino, é profundamente viciado em pornografia, só dela conseguindo retirar verdadeiro prazer. O filme é visual e completamente descomplexado. Insiste abertamente na sua fórmula, é pungente e gere bem o choque que provoca.

É impreterível começar por dizer que Don Jon é uma invenção quase a solo de Joseph Gordon-Levitt que, além de protagonista, se estreou a escrever e a realizar. A nível interpretativo, Levitt sempre foi dos meus menos favoritos. Acho-o um dos nomes mais sobrevalorizados do mercado, acho que lhe falta engenho e que é um deserto de génio e de carisma. Não raras vezes, parece feito de plástico a nível expressivo... e Don Jon não me vem transformar a opinião nesse campo. Admito que a figura áspera e, quiçá, simplória de um tipo de New Jersey dedicado à família, aos amigos, ao ginásio e à sua igreja será dos papéis mais capazes da sua carreira, mas sinceramente só porque a medida era muito confortável e pedia-lhe pouco mais do que uma caricatura. Nas poucas ocasiões, aliás, em que se lhe reclama um pouco de nervo ou de emotividade, o resultado é o mesmo de sempre. Don Jon pode é passar aos livros como um portal para outra dimensão, onde já foram morar nomes como Ben Affleck: a chegada ao porto da Direcção/Argumentação.

O filme é uma notável peça de realizador, candidata a qualquer prémio de Melhor Estreia. É um trabalho de uma intensidade muito interessante, com um corte de planos rápido mas sempre ágil, que dá cadência ao filme e que nos vai puxando para ele. Gordon-Levitt também investe bastante em planos fechados, em repetições e numa não linearidade que confirma a sua lente como uma definitiva mais-valia, a rever assim que possível. Ao argumento original, do mesmo modo, só posso tirar o chapéu. Não porque tenha sido imaculado, mas porque demonstrou codícia, inteligência, gosto pelo risco e porque o soube concretizar. A primeira metade do filme é, de facto, brilhante, à medida que vamos conhecendo e tentando perceber a extrema peculiaridade do protagonista. Cada nuance, cada nova linha, é uma novidade que nos agarra à história, sendo o cume o segmento com Scarlett Johansson que, sinceramente, representa uma das pérolas do ano. Cada um achará das suas capacidades enquanto actriz o que quiser, mas num papel onde o elemento-chave é a fusão de sensualidade com a sua inenarrável beleza natural, Scarlett foi um cast de sonho. A personagem não lhe exige muito e é toda ela bem escrita, nos altos e nos baixos, mas é o seu sex appeal brutificante o que vem constituir uma experiência com vida própria dentro do filme, passível de quebrar qualquer queixo e de abstrair de tudo o que a rodeia. Uma chapa.

Estaríamos a falar, portanto, de um dos candidatos do ano, se o filme não tivesse feito o desfavor a si próprio de espalhar-se ao comprido no capítulo final. Admito que não era um trabalho fácil de acabar e não acho que a opção argumentativa seja totalmente imérita: não é surpreendente, mas é um desfecho com sentido, que talvez com mais bagagem e com outra capacidade interpretativa (Julianne Moore também não surge nos melhores dias) pudesse ter funcionado. Assim, a viagem de um tipo agreste na descoberta da sua própria intimidade acabou por render um fim ligeiro, lírico e pouco genuíno, ainda mais afectado pela prestação insuficiente de Levitt, que foi, no fim de contas, tanto o criador como o principal ponto fraco da sua obra. Don Jon terá de constar, seja como for, na lista dos que valeram a pena do ano que agora acaba.

7/10

Sem comentários: