sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Hello darkness, my old friend


Suponho que nunca se esteja preparado para ver nascer uma das séries da década. Algumas podem ser muito antecipadas, mas carregam consigo o peso de corresponder às expectativas; outras vêm pela sombra, e são tanto mais impressionantes por causa disso. Quando há cinco anos atrás, no início de 2014, um argumentista relativamente desconhecido nos seus 30 tardios vendeu uma antologia de crime à HBO, poucos poderiam imaginar que essa se tornaria na série de estreia mais vista de sempre da marca, e num fenómeno de culto.

A 1ª temporada de True Detective continua a ser um exercício perfeitamente memorável do que é produção televisiva no topo da capacidade criativa, uma obra-prima monstruosa feita de ambição na narrativa, um estilo visual único, mística da história e interpretações fenomenais. Estou convencido até hoje de que, se o grande McConaughey ganhou o Óscar nesse ano, deve-o bem mais à série, do que ao Dallas Buyers Club. Para mim, a estreia de True Detective continua a ser o compêndio do que se pode sonhar ser em televisão, um exemplo, até despretensioso, de até onde é possível ir, desafiando-se a si próprio, à audiência e a cada episódio, sem dar nada por adquirido, sem medo de fazer novo e fazer diferente, sem jamais deixar de puxar a corda. É, obviamente, uma das melhores de sempre.


Por ironia, nunca vi a 2ª temporada (o que, numa antologia, significa uma história completamente diferente), que foi avassalada pelas críticas, porque pensei que não teria estrutura emocional para ver ruir à minha frente um património daquele tamanho. Como não sou dado a despedidas, nem a deixar-me ficar até à queda dos meus ídolos, foi uma decisão com a qual convivi bastante bem, porventura ao contrário de muitos outros, como o próprio Nic Pizzolatto, o criador, que se propôs, cinco anos depois, a algo ainda mais difícil do que fazer uma obra-prima. Fazer duas.

O certo é que voltamos sempre ao lugar onde nos cativaram, de uma forma ou de outra, e hoje, não me assusta o peso da responsabilidade de afirmar que, a duas semanas do fim da temporada, o 3º True Detective é como ver a Renascença a acontecer. É o regresso impossível àquela assinatura televisiva em estado latente, a uma embriaguez que não parecia possível voltarmos a encontrar, visualmente e ambientalmente e estilisticamente tão superior, que às vezes até custa a aceitar no tão bom que é.


A duas semanas do final da temporada, True Detective não é, outra vez, apenas a melhor da temporada, é a melhor em muito tempo e uma experiência sensorial absolutamente irresistível, como um livro que não conseguimos parar de ler, uma história que queremos adivinhar, um mistério que nos leva para dentro e que nos destina a tentar resolver o que nos for possível, prestando atenção aos detalhes, pensando como eles, conjurando sobre tudo o que está à nossa frente, ou não. No quarto escuro, noite dentro, também nós vamos naquela viagem no espaço e no tempo pela América profunda, consumidos por onde raio tivermos falhado, angustiados pela impotência, não perante o único puzzle que não conseguimos resolver, mas perante um que nos devorou de volta, de cada vez que o deixámos fugir por entre os dedos.

Pizzolatto provou que é possível inventar o mesmo golpe de génio duas vezes, porque o golpe de génio é, afinal, tantas vezes uma questão de estilo, e o estilo do labirinto que ele criou na nossa cabeça, é imbatível. Porque não há coincidências, este será também o ano da consagração de um dos actores mais superlativos do nosso tempo, Mahershala Ali, que provavelmente ganhará o seu segundo Óscar e, sem desprimor para Green Book, provavelmente pela sua melhor performance do ano, esta. Que qualidade. Que naturalidade a ser o herói num papel que lhe exigia tanto compromisso e tanto despojo. O forte das personagens, como do argumento, é esse realismo, é poder ser tudo modesta e moderadamente verdadeiro. E isso perturbar-nos tanto. A arte foi feita, afinal, para perturbar o nosso conforto e tudo aquilo que damos por adquirido, e o Detective Hays vem devagar, mas assusta-se. True Detective vem devagar, mas mete medo. E é uma sorte que assim seja. É uma sorte ter conseguido fazer isto outra vez.

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