domingo, 23 de janeiro de 2011

Crónica de uma derrota anunciada

Hoje à noite, Cavaco vai ganhar com maioria absoluta.

Essa consciência é uma lição para mim, e para todos quantos olham para ele, e para os últimos 5 anos, e vêm um Presidente da República profundamente anti-carismático e distante, amorfo, o exemplo maior dum produto do sistema, alheio a todo o mérito e a todas as ideias boas que deviam fazer a política. Um homem que mandou no país durante 15 dos últimos 20 anos, e que ainda enche a boca para dizer que, sem ele, teria sido muito pior. O Presidente da República que não fala sobre nada desde que não possa ganhar qualquer coisa com isso, o Presidente que, sobre qualquer tema verdadeiramente importante, ainda nos goza na cara, a dizer que o Presidente não pode falar dessas coisas. Um vazio de ideias e de discurso aterrador, o exemplo acabado não do servir, mas do servir-se da política.

Hoje à noite, Cavaco vai ganhar com maioria absoluta.

Essa consciência é uma lição para mim, e para todos quantos não votaram, não quiseram, não tentaram ou deixaram passar. A culpa não é do contexto histórico-cultural, que diz que uma reeleição de Presidente é quase certa, nem da campanha desapaixonada, nem dos candidatos "serem todos maus". A culpa é de quem, como eu, cagou, não quis, não tentou, ou deixou passar. Por viver muito longe de casa, eu nunca votei. Não tentava sequer, pelos relatos de burocracia estapafúrdia que tornavam o acto francamente indigesto. Desta vez, pese o certo trabalho que ia dar, pareceu-me que havia uma janela de oportunidade. Mesmo assim, passou. Não me informei a tempo, não insisti, conformei-me.

É por minha culpa, e pela culpa de todos os outros como eu, que, hoje à noite, Cavaco vai ganhar com maioria absoluta. No fundo, não merecemos mais do que ele.

2 comentários:

Joana Nunes disse...

Não teria dito melhor , Paulo ( :

Joana Aguiar disse...

Decalco, na íntegra, esta reflexão. Há-de ficar-me a ferida aberta na consciência, depois deste golpe. Por não ter insistido. É duro estar na metade inútil e bacoca da nação.