terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

É do tamanho do que joga


Aos 18 anos, quando se estreou pelo Sporting, já jogava como um velho. Ano sobre ano, foi sempre o critério em pessoa, o mais inteligente, o mais confiável e o mais rentável da equipa. Em qualquer circunstância de jogo, é seguro que Moutinho investirá na melhor decisão, e seria capaz de fazer 100 jogos por ano, e continuar a ser totalista e um dos melhores. Sempre foi o sonho de qualquer treinador.

Algures no caminho, no entanto, duvidou-se do estofo. Nunca da fiabilidade, mas da estaleca para queimar níveis, da personalidade e da maneira de estar. Crescendo ao lado de Nani, Veloso ou Djaló, Moutinho sempre foi a antítese da estrela. Averso à ribalta, preferia andar escondido nos vértices do meio-campo de Peseiro ou de Paulo Bento, a ser um gregário de alta produção, em vez de ser ele a cara das coisas. Os adeptos gostam do perfil, mas humildade a mais nunca fez bem a ninguém. Esse caminho levou-o, eventualmente, a falhar o Mundial da África do Sul. Lembro-me de ter concordado, na altura. Moutinho era um jogador-modelo, mas só isso nem sempre chega. Sem nunca ter sido um criativo, e sem ganas para assumir o jogo e para agarrar a equipa, sem esse nervo, era como se estivesse condenado a ficar à margem dele próprio.

A demonstração brutal de hoje, nuns oitavos-de-final da Liga dos Campeões, fala por tudo o que Moutinho evoluiu nos últimos três anos. Já não é só o melhor aluno da escola; é o tipo que organiza as festas, toma a dianteira e que contagia toda a gente. O mais importante da ida de Moutinho para o Porto não foram os títulos, não foi poder estar nos jogos que todos querem jogar. Foi a avalanche de personalidade adquirida, o nervo, a libertação mental do seu futebol. No Porto, tiraram-lhe o peso do mundo das costas, o que ajuda, claro. Mas também lhe exigiram que fosse melhor, porque ser bom já não era suficiente. Não para aquela estrutura, não para o seu talento. Tem corrido como se vê.

Moutinho nunca será um abre-latas fazedor de impossíveis, como Iniesta; mas já não é o pão sem sal exemplar, que recupera, toca e toma uma boa decisão. É um Pequeno possuído, que corta com os dentes de fora, manda uma cueca no primeiro que lhe aparece, arrasta consigo as carruagens da equipa, e abre uma avenida a um colega. Ou então, a nova moda da temporada: pica ele próprio o ponto, de livre, de fora da área, ou até dentro, como hoje. Aos 26 anos, continua a crescer. Teve o mérito extremo de não ficar para trás, de tomar decisões difíceis mas certas, e de acompanhar o que a sua mentalidade e o seu talento sempre prometeram poder fazer. Será hoje, com propriedade, um dos dez melhores médios-centro da Europa, e que não se ache que ele não pode continuar a escalar degraus. Fica maior todos os dias.

No campo, o Porto voltou a provar que, nisto da Champions, não ganha quem quer. Faltaram melhores oportunidades e mais golos, mas o Málaga foi vulgarizado de forma evidente, e só um jogo muito atípico no La Rosaleda pode tirar os homens de Vítor Pereira da pole dos 8 melhores da Europa.

1 comentário:

luís disse...

só um grande faccioso não vê que o que o Moutinho tem feito no FC Porto também o fazia no Sporting.