quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ÓSCARES, 85 - Antevisão


2012 foi um ano gordo, a cumprir grandemente as expectativas. Claro que não acertaram todos, mas multiplicaram-se as produções oscarizáveis de sucesso, surgiram uns quantos low-budget cheios de qualidade, e até os blockbusters correram bem. É justo dizer que foi um ano em cheio, e, como sempre, só falta saber com que legitimidade o coroará a Academia. Pela quarta vez, faz-se aqui no estaminé a previsão da maior de todas as noites com um fervor quase clubístico, a torcer, garantidamente, por quem não vai ganhar, a implicar com outros que vão, e a zelar por fumo branco da nossa justiça, na hora de abrir os envelopes. Vamos, então, às contas.

FILME (vistos 8/9)
A implicação joga-se em grande, este ano. Tal como tem sido mais ou menos costumeiro, o prémio dos prémios chega à noite decisiva com vencedor anunciado. Até mais do que no passado recente, não parece realista que Argo possa perder o título de rei da festa: ganhou, até agora, o Globo, o BAFTA e o Critics Choice. Ora, para mim, Argo é, verdadeiramente, a maior desilusão do ano. É uma daquelas coisas em que posso ser quase pregador solitário, mas as minhas próprias expectativas eram altíssimas, para um filme que tinha realizador, cast e história, que tinha rigorosamente tudo a favor, e que, no final de contas, foi concretizado com suspense de 5ª categoria, e com dolorosos clichés atrás de clichés, que o vulgarizaram completamente. A história é boa por natureza, não se discute. Daí a ignorar a falta de interpretações e a banalidade da adaptação, e pior, a considerá-lo o melhor filme de 2012 !?, logo num ano tão rico, é qualquer coisa de tormentoso. E acho que, mesmo quem gostou, não terá dificuldade em admitir que Argo não é, de forma nenhuma, o melhor que viu este ano.

O meu vencedor seria Silver Linings Playbook, como escrevi assim que o vi. Não é o filme mais difícil do ano, ou o mais majestoso, mas é a celebração do cinema comercial como notável contador de histórias, a prova de que o cinema do qual toda a gente gosta, também pode oferecer um universo de qualidade a todos os níveis: no texto extraordinário, pejado de uma maturidade e um brilho únicos, na fusão de géneros, na cor da realização e na qualidade estupenda das interpretações. Silver Linings é uma pérola, um filme-modelo que fará escola, e que merecia absolutamente ser considerado o melhor do ano. Logo depois, Lincoln, Django ou Life of Pi, por esta ordem. Todos magníficos. Ou ainda Beasts of the Southern Wild e Amour. Aliás, esta enumeração só engrossa o quão deprimente é que seja Argo a vencer.

ACTOR (3/5)
Daniel Day-Lewis, e a resenha podia ficar por essas três palavras, que toda a gente ia compreender a excelência. Ganhou tudo até agora, e vencerá sem que alguém tenha, sequer, o direito de contestá-lo em pensamento. É um monstro, um dos colossos dos nossos dias, e vai concretizar a brutalidade de ser o primeiro homem da História a vencer pela terceira vez Melhor Lead, o que diz basicamente tudo o que há para dizer.

ACTRIZ (4/5)
Das categorias mais abertas da noite, a ser jogada em três frentes: Jessica Chastain ganhou o Globo Drama e o Critics Choice; Jennifer Lawrence o Globo Comédia e o Sindicato de Actores (SAG); Emmanuelle Riva ficou com o BAFTA. Impõe-se, desde logo, um sublinhado: Chastain não merecia estar a dividir as possibilidades. Teve um filme escrito exageradamente para si, distorcido pela sua personagem, e, a partir de um texto enjoativo, teve uma performance sofrível. Não está, de forma alguma, ao nível das duas adversárias. Riva foi avassaladora, no retrato da degradação da idade e da doença, e merecia subir àquele palco, logo no dia em que faz 86 anos, e em que se chancelará como a senhora mais velha de sempre a ser Nomeada. A melhor de todas é, contudo, Jenny Lawrence. A sua personalidade e o seu jeito são qualquer coisa de desconcertante, e a sua química farta rouba cena atrás de cena, tornando-a simplesmente apaixonante. É um figurão que devia ser suficiente para, aos 22 anos, e já na sua segunda nomeação, receber a primeira estatueta da carreira.

SECUNDÁRIO (4/5)
Outro directório aberto a apostas. Christopher Waltz, com os olhos no segundo Óscar em quatro anos, parece ligeiramente na dianteira, tendo vencido o Globo e o BAFTA. Tommy Lee Jones, porém, venceu o SAG, e Philip Seymour Hoffman o prémio da Crítica. Não vi The Master. Entre os outros dois, devo reconhecer que o galardão fará sentido nas mãos de ambos. Waltz volta a ser brilhante nos caminhos de Tarantino, calmo e incendiário ao mesmo tempo, num dos seus jokers de sempre, mais uma vez icónico na sua acção. No entanto, o meu favorito é Tommy Lee Jones, na pele da História, num papel poderoso, dúbio, e onde os meios justificam os fins, profundamente carismático e venerável.

SECUNDÁRIA (3/5)
Vitória unânime de Anne Hathaway, que não vi. O triunfo não lhe irá fugir, e de quem presenciei - Sally Field, Helen Hunt e Jacki Weaver -, não sobressaiu verdadeiramente ninguém. Merecerá a nota Helen Hunt, com o papel mais interessante de entre essas três.

REALIZAÇÃO (5/5)
É, ao mesmo tempo, a categoria mais feliz do ano, a nível de escolhas, e o mais extremo ponto de interrogação da noite, uma vez que Ben Affleck, que venceu tudo até agora, não estará na corrida. Um único pecado: a ausência injustificável de Tarantino. De resto, o corte a direito em nomes grandes como Affleck e Bigelow, em benefício de um estreante como Benh Zeitlin, e da sua realização fantástica de Beasts of the Southern Wild, e dos menos mediáticos O. Russell e Ang Lee, com trabalhos infinitamente mais merecedores, merece uma vénia. Espero que não ganhe Michael Haneke, a única realização da lista da qual realmente não gostei. Estava a torcer por Spielberg desde que comprovei que Lincoln é um filme ao nível dos velhos tempos, a findar um hiato que já ia longo; mas Ang Lee, e a sua monumentalidade visual, em Life of Pi, somada ao facto do filme poder passar em branco sem essa vitória, faz dele o meu favorito.

ARGUMENTO ORIGINAL (4/5)
É um prémio sempre especial para quem gosta de cinema e gosta de escrever. Tarantino já estará a sentir o título nas mãos, 18 anos depois de Pulp Fiction, e além de ser uma vitória inatacável, ainda sabe melhor por ser para ele. Só não venceu o Sindicato de Argumentistas até agora (vitória absurda de Zero Dark Thirty...), mas é, de muito longe, o favorito, depois de mais uma demonstração de todo o seu génio, que o colocará numa galeria de elite de apenas 5 homens que ganharam tamanho prémio mais do que uma vez, liderada, claro, pelo mestre dos mestres, Woody Allen de seu nome (3 vitórias). 

ARGUMENTO ADAPTADO (5/5)
Tudo em aberto. O Sindicato de Argumentistas deu a vitória a Argo, os BAFTA a Silver Linnings Playbook e o Critics Choice a Lincoln. Passando a implicância, acho que o maior atentado a envolver Argo na cerimónia ainda seria a vitória da penosa adaptação de Chris Terrio. Seguindo tudo o que já disse, certíssima está a Academia Britânica, e o meu prémio também seria para David O. Russel, e para o seu estupendo Silver Linings. Senão, que seja premiado o trabalho notável de Tony Kushner, em Lincoln, a contar a História como se a tivesse vivido.

ANIMAÇÃO (3/5)
Mais um ano desolador, ainda pior do que 2011. É dramático que a Animação, que no fim da última década andava nos píncaros de toda a gente, com o corolário que foi estar, pela primeira vez, na corrida a Melhor Filme (Up, 2009), continue a fazer esta insossa caminhada pelo deserto. Brave, talvez o Pixar mais fraco de sempre, é o candidato melhor posicionado - venceu o Globo, o BAFTA e o Annie -, mas Wreck-It Ralph, que não cheguei a ver, ganhou o Critics Choice, e pode ter uma palavra a dizer. Espero, sinceramente, que não seja Brave a ganhar. À Pixar é obrigação exigir-se infinitamente mais; o desfecho não deve ser que piore tanto, e continue a ganhar. No meio de uma franca pobreza, e dos que vi, venceria ParaNorman.


Em suma, torce-se por qualquer derrota de Argo e por qualquer vitória de Silver Linings, em particular de Jennifer Lawrence e de Argumento Adaptado, onde as hipóteses são reais. Pelas não vitórias de Jessica Chastain, Michael Haneke e Brave, e pelo reconhecimento de Lincoln, Django e Life of Pi. E que Adele marque o ponto de honra de Skyfall, com Música Original. Na madrugada de Domingo para Segunda, na TVI, como sempre, a partir da 1 da manhã. Expectativas muito altas para o hosting de Seth MacFarlane.

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