quinta-feira, 8 de maio de 2014

23 convocados. Os melhores, os fiéis e os necessários


Rascunhar a convocatória do seleccionador em Verão de grande torneio será sempre um dos mais unânimes passatempos nacionais. A realidade diz, porém, que chegada a hora esse é, quase sempre, um exercício redundante, que muito raramente se presta a corroborar surpresas de monta. De facto, um Mundial não é notícia de ontem. É o resultado prático de dois anos de qualificação, com todas as experiências, nuances e calejamento de um grupo mais ou menos definido de jogadores que, na maior parte dos casos, até é geracional e sobrepõe esse ciclo bienal de apuramento. A última chamada é sempre crua. Não é hora de inventar a roda, mas de encontrar a fusão entre os melhores e os que foram treinados exactamente para esse efeito. A Selecção, como toda a gente sabe, tem uma equipa titular definida desde o pós-África do Sul e não há nenhuma razão para crer que ela possa ou vá mudar. Para além disso, ficaria mesmo bastante surpreendido se a convocatória do próximo dia 17 não fosse a seguinte (titulares a negrito, não que fosse necessário):

GR: Patrício, Beto, Anthony Lopes.
DEF: J. Pereira, Pepe, Bruno Alves, Coentrão, André Almeida, Ric. Costa, Neto.
MED: Veloso, Meireles, Moutinho, William Carvalho, Amorim, Ruben Micael.
ATA: Ronaldo, Nani, Postiga, Quaresma, Varela, Hugo Almeida, Éder.

Desmistificada a questão, diria que qualquer projecção da convocatória, para ter significado, terá de ser um esboço, por assim dizer, dos 12 suplentes. Haverá deles com lugar cativo, sim, mais ou menos justificado, mas é na especulação sobre o banco que há margem para pensar a Selecção e ser inteligente sobre o alcance das opções. Ao contrário do senso comum, não acho que a equipa tenha de ser, no sentido lato, o lugar onde moram os 23 melhores jogadores da Nação. Esta deve ser, na verdade, o grupo que dê maiores garantias de sucesso, e esse sucesso não é directamente proporcional nem ao talento, nem à forma, mas, na minha opinião, à complementaridade e ao plano emocional. Grosso modo, os meus critérios para acabar a lista seriam, por esta ordem, a capacidade para oferecer soluções diferentes, a experiência, o talento e o valor para o balneário.

BALIZA


Patrício e Beto são positivamente inquestionáveis. Parecia certo que Eduardo nunca perderia um lugar, mas o pasmo de época no Braga foi suficiente para varrer uma das sensações do Mundial-2010. A baliza, curiosamente, desafia as premissas anteriores, uma vez que o terceiro guardião é uma figura honorária que, garantidamente, não terá qualquer minuto. Neste sentido, compreendo se Paulo Bento optar por Anthony Lopes, titular do Lyon aos 23 anos, numa lógica de incorparação do futuro. A minha escolha seria, contudo, Ricardo (Académica). O guardião da Briosa anda há épocas a ser um dos melhores da Liga e, no dealbar de mais uma grande temporada, aos 31 anos, representaria uma oportunidade honesta para o seleccionador mostrar que não olha só para os grandes e para o estrangeiro.

DEFESA


Garantido será que só existem 7 bilhetes para a defesa, distribuindo-se os lugares vagantes por dois centrais e um lateral. Aqui, acredito que Paulo Bento escolherá bem. Cédric fez uma época boa, e tem o lobby da formação do Sporting, Miguel Lopes tem experiência e Antunes uma canhota. Para o lateral suplente, todavia, o critério só pode ser a polivalência. O lugar seria, portanto, de Sílvio, não tivesse ocorrido a fatalidade da lesão. Assim, André Almeida (Benfica), com dois anos a dar boa conta de si pela provas europeias, e onde foi preciso, é a opção correcta. No coração da defesa, só tenho pena que Fonte (Southampton) não tenha tido oportunidades no último ano. Se não preconceito, foi desconsideração enviesada do seleccionador sobre o bastião de uma das grandes defesas do melhor campeonato do mundo. Nesta fase, contudo, chamá-lo seria ilógico. Paulo Oliveira (Guimarães) é o futuro da posição, mas as vagas devem ser de Neto (Zenit) e Ricardo Costa (Valência). O primeiro por, qualitativamente, ser, de facto, o terceiro melhor da esquadra, o segundo pelo incontornável capital no balneário.

MEIO-CAMPO


Neste momento, deixar William Carvalho (Sporting) em terra seria uma barbaridade tão bíblica, que nem a sério se pode levar. O melhor jogador português da liga não só foi a bestial revelação do ano como, por todas as características e mais algumas, seria sempre, no meu entender, o titular da casa #6. Provavelmente não será, mas é certo que estará na lista (pelo menos, depois do episódio-Fernando...). Sobre os médios-centro, acho que há duas concepções essenciais: desde logo, e mais importante, salvaguardar o perfil da equipa, com um interior puro, sábio, que equilibre sempre. Só vejo dois jogadores com essas características: Rúben Amorim e Adrien. O subcapitão do Sporting fez, de facto, uma grande época, e de certa forma merece a pressão que se tem exercido para que conste da lista final; todavia, partilho da provável decisão do seleccionador. Rúben Amorim (Benfica) é melhor jogador, fez óptima época, é bem mais rodado e está no grupo há mais tempo. Sem discussão.


Pelo contrário, o último elemento do miolo deve romper o padrão. Deve ser diferente dos que lá estão e deve oferecer soluções que os outros não podem. Será das vagas mais metamórficas: até ver, Rúben Micael é o dono do posto; André Martins foi cultivado durante o último ano e André Gomes e Josué já foram ambos observados de perto. Sendo muito objectivo, diria que carregar Rúben Micael seria ridículo. É o #10 mais evidente dos seleccionáveis, mas padece de um pequeno problema: não ter absolutamente qualidade para lá estar. A época no Braga faz o cheque-mate. Sobra, assim, um porta-bandeira juvenil de cada um dos grandes, todos bastante particulares. O melhor jogador? André Martins. O que, na minha opinião, pode causar mais impacto a sair do banco? André Gomes (Benfica). Tem o físico, a passada e a personalidade.

ATAQUE


Sobre o debate mais icónico, também reconheço o tão difícil que é Quaresma (Porto). Também discuto a sua operacionalização numa equipa que não está sequer próxima de jogar para ele e, mais do que isso, a sua utilidade, produtiva e emocional, na pele de suplente. Tudo pesado... e convocava-o sempre. Há talentos que só um louco recusaria e o que Quaresma pode fazer numa fracção de segundo, num único lance, é mais relevante do que outros em torneios inteiros. Diz a regra que os três últimos lugares deveriam corresponder a um extremo e a dois pontas-de-lança... o tipo de coisa que valerá a pena desconstruir. Primeiro, porque Portugal tem mais e melhores soluções no transporte do que na área; depois, porque joga com um único avançado; finalmente porque, em boa verdade, se o desespero chegar, é Ronaldo quem vai ao meio, não um Edinho ou um Nélson Oliveira. A minha opção era, então, sacrificar dois soldados de Bento.


Varela é um tipo leal, brutalmente comprometido e tem a seu favor o facto de, por mais do que uma vez, já ter inventado um milagre. É um amuleto e dificilmente não será convocado. Acredito, no entanto, mais na qualidade do que na fé e, por mais esforçado que seja, Varela é só um jogador comum. Incomparável, por exemplo, ao alcance da capacidade de Danny (Zenit). O madeirense nunca foi feliz nas quinas, é verdade, mas só por desonestidade se poderia pôr em causa o seu incrível rendimento na Rússia ao longo de tantos anos. É versátil em relação aos outros extremos, joga por dentro e pode, inclusive, apresentar-se como um #10. Esquecê-lo era o tipo de luxo para quem não tem a nossa parcimónia de recursos.


Na eterna sombra de Postiga, Hugo Almeida terá assinado uma das melhores épocas da carreira. Está no grupo vai para uma década e sugere uma solução alternativa que tem de estar prevista. Não consigo, contudo, deixar de optar uma vez mais pelo talento. Éder (Braga) teve um ano difícil, mas não engana. Ao físico e ao jogo-alvo, acrescenta agilidade, leitura e instinto. E, sejamos crus, é infinitamente mais jogador do que Almeida. Para o bem e para o mal, também chegaria fresco ao Brasil.


Para o fim, o joker. Acho que cabe um em qualquer convocatória e, no nosso caso, não há rigorosamente nada a perder. O meu jogador número 23 seria Bebé (Paços). No Natal, pouco parecia sobrar ao mais meteórico negócio da História do futebol português. A eurodisseia do Paços fora um fracasso e a travessia no deserto insinuava prolongar-se muito para lá da segunda metade da época. O que aconteceu ao ainda jogador do United desde aí foi monumental. Com a produção e os golões a falarem por si, as suas características únicas tornam-no, neste momento, terrivelmente valioso. Compará-lo aos candidatos a terceiro ponta-de-lança é tão primário que dispensa mais explicações.

Como referi à partida, não espero quaisquer surpresas no dia 17. Fica apenas o registo para memória futura.

GR: Patrício, Beto, Ricardo.
DEF: J. Pereira, Pepe, Bruno Alves, Coentrão, André Almeida, Ric. Costa, Neto.
MED: Veloso, Meireles, Moutinho, William Carvalho, Amorim, André Gomes.
ATA: Ronaldo, Nani, Postiga, Quaresma, Danny, Bebé, Éder.

2 comentários:

Joao Jardim disse...

Acredito que serão esses 23 a escolha de Paulo Bento (PB), porém tenho algumas dúvidas com o Ruben Micael e Varela (para não falar de Postiga e Hugo Almeida).
O Adrien no lugar do Ruben, e Danny no lugar de Varela. A partir do momento em que o Licá e Josue vestem a camisola das quinas o Adrien já lá deveria estar, e penso que no lugar de ruben, pois PB se quisesse utilizar um verdadeira 10 utilizaria o Danny que ainda pode ir para a linha e não o Ruben. O Adrien é um bom suplente, é um box-to-box, para trabalhar no meio campo como suplente de Meireles.
No teu 11 titular fazia uma mudança que considero ser de risco, tirava Veloso e colocava William, porque a uns anos que a selecção já não tinha um 6, PB anda a jogar com três jogadores que são um 8 nenhum deles é um 6 nem um 10, e isso nota-se em campo .
Abraço

Paulo Pereira disse...

O Adrien fez uma grande época, é muito bom jogador e não faria feio. É só uma questão de diversidade/complementaridade. Quando chegares lá, tens muito pouco tempo, poucos jogos, precisas de ter soluções tão diferentes quanto possível. O que faz o Adrien, fazem o Veloso, o Meireles e o Amorim. Achando eu que o Amorim tem de ir, não faz sentido levar o Adrien, em prejuízo de quem pode acrescentar dimensão física, como o André Gomes, ou criatividade, como o André Martins. Porventura, o Adrien é melhor do que ambos, mas não oferece determinadas características que eles podem oferecer. Além de que não o vejo como um box-to-box. É um jogador completo, equilibrado, mas não vertical.

Sobre o William, totalmente de acordo, também seria o meu titular na vez do Veloso.