quinta-feira, 19 de junho de 2014

Copa, dia 7: eram imortais, só não podiam viver para sempre


Espanha 0-2 Chile

Lembro-me que, na final do último Europeu, fechei o meu texto com a única epígrafe que me pareceu suficiente. Essa crónica chamou-se 'A equipa que vimos jogar'. Hoje, dia em que esse livro se fechou, é o melhor para afirmar que não sei se algum dia voltaremos a presenciar um fenómeno como a era Espanhola. Como em tudo o que é suficientemente marcante, não está em causa só o que se ganhou, e este é um dos casos em que as evidências a esse nível falariam estritamente por si; o cerne, porém, é verdadeiramente a forma como se fez. A Espanha foi a equipa que nunca tínhamos visto. Uma conspiração alienígena qualquer que reinventou o jogo às suas regras próprias e que, durante anos a fio, nunca teve realmente um adversário. Isto é uma hipérbole por definição, mas a Espanha era a hipérbole por definição. A equipa que não perdia nada, nem sequer a bola. Às vezes tinha um dia mau, às vezes tinha azar mas, em circunstâncias normais, e na maior parte das outras, acabava tudo da mesma maneira. 1 Mundial, 2 Europeus, dezenas de vitórias, centenas de posses de bolas, a experiência competitivo-estilística mais desafiante da História, e isso estão condenados a reconhecer tanto os aprendizes da filosofia como os mais entusiastas dissonantes. A Espanha foi fascinante para quem gostou de ver, para quem não a suportou e para quem nunca a pôde parar. Fascinante naquela vertigem impossível da inevitabilidade da vitória que a tornou no mais único de todos os rivais. Estou à vontade para falar, porque não houve um jogo em que eu tivesse querido pela Roja. Não houve um dia em que aquele bailado me tivesse seduzido, nem um torneio onde eu não tivesse torcido por melhores futebóis. É, por isso, com todo o desprendimento que hoje digo que nunca existiu e nunca existirá maior adversário.

Daqui em diante vão-se duplicar argumentos, triplicar razões e ver revelados todos os dogmas do mundo sobre a diferença entre o sucesso e o fracasso espanhol. Que nos últimos dois anos era evidente o atrofio do Barça, a Meca onde tudo isto começou. Que Del Bosque resistiu à renovação geracional e levou todos os velhos que pôde. Que quem já ganhou tudo acomodou-se, perdeu a fome. Que não havia plano B, que lhes faltou seriedade ou que os adversários descobriram a poção mágica. Talvez tenha sido um pouco de tudo, talvez os prognósticos estejam sempre certos no fim do jogo. Da minha parte, digo em consciência que não há nada técnico nem nada táctico que pudesse realmente antecipar um fim deste tamanho e que, portanto, é desonesto crucificar seja o que for. De facto, algo falhou. De facto, já todos haviam ganho tudo, mas alguém pode jogar um Mundial e não querer saber? Mais, se não confiar em quem já ganhou tudo, já lhes ganhou tudo, então em quem? Cabeças rolarão, é certo, porque é disso que a vida se faz. Rolarão por linhas tortas, mas rolarão bem, ceifadas nesse inelutável teste que é o tempo. Por mim, apenas lembrarei o que aconteceu no Brasil como um fim muito grande, para quem foi muito maior do que isso. Um fim orgânico, natural, um ciclo de vida quando a vida achou que era a hora, porque nada pode viver para sempre. Nem um Império. Duvido que os próprios espanhóis lho dêem, mas esta equipa merecia o respeito dum luto desses. Limpo.

Sobre o jogo, resta pouco a dizer, tão maiores foram as suas consequências e tão distantes estiveram ambas as equipas. Só havia duas opções no Espanha-Chile: ou a Campeã se impunha, e sobrevivia à força, ou seria perfeitamente obliterada. Acreditei honestamente que não era desta, que a sorte podia estar traçada mas que ainda teriam de ser os maiores a vir provar se eram bons o suficiente. O Chile, no entanto, encarregou-se de demonstrar que era grande que chegue. Os homens de Sampaoli, a quem se antecipavam tantas coisas mas que haviam sido modestos na estreia, não tremeram nem por um segundo. Subiram ao Maracanã como predadores inebriados com o cheiro a sangue e, hoje sim, na consumação inteira do que vale o ADN da equipa, deixaram a Espanha em pedaços. A sua agressividade sobre a bola, a ultra-velocidade das suas transições e a filosofia suicida com que praticamente todos atacam ao mesmo tempo foi um furacão perante o qual, percebemos cedo, a Roja não detinha qualquer chance. O 1-0 é uma mistura cósmica de fôlego, técnica e velocidade da luz, perante algo comparável a uma Internet Explorer das defesas. Hoje, nenhum teria sido pior adversário do que o Chile.

Na segunda-parte, quando o jogo já tinha positivamente acabado, ainda pareceu tudo mais agreste. A Espanha foi desoladora. Um gigante derrubado sem poder contar com a misericórdia do cronómetro, de joelhos sem poder sequer arranhar o adversário, no meio do seu castelo a arder, do seu próprio Maracanazo. Uma das imagens do Brasil será Iniesta sozinho entre três e quatro chilenos durante aquela segunda-parte inacabável, the last man standing, como nos filmes, queimado e ferido, com mortos e desistentes à sua volta, por uma vez humano, por uma vez menor do que o seu destino. A Espanha acabou em grande, porque só podia ser assim, como o resto. Eu, como tantos outros, brindei à queda. No fundo, não conheço forma mais honesta de honrar um verdadeiro adversário.

1 comentário:

Jonas Pereira disse...

Sem o Pep fica mais dificil...